Por diana.dantas

Na semana passada o Banco Central divulgou seu Boletim Regional, publicação trimestral que apresenta as condições da economia por regiões e por alguns estados do país. Segundo o Índice de Atividade Econômica do Banco Central – Brasil (IBC-Br), a atividade mostrou arrefecimento no trimestre encerrado em fevereiro, refletindo os ajustes já em curso, e mostrou recuou de 0,6% ante expansão de 0,7% no trimestre anterior. O dado foi resultado dos desempenhos enfraquecidos das vendas do comércio e da produção industrial, do menor crescimento do crédito e do consequente impacto desses fatores no mercado de trabalho.

Nesse sentindo, os índices de confiança de diversas instituições mostram-se nos menores patamares de suas séries históricas, tanto os que representam o lado dos empresários, quanto os que representam o lado dos consumidores. A pesquisa Intenção de Consumo das Famílias (ICF), realizada pela CNC, registrou, em maio, o quarto menor valor consecutivo da série histórica e, pela primeira vez, um número abaixo de 100 pontos — nível de indiferença da pesquisa. O levantamento é um indicador antecedente que tem como objetivo estimar o potencial das vendas do comércio. O índice geral está em 96,4 pontos e registra queda anual de 21,2%. O componente mais enfraquecido da pesquisa é o Momento para Duráveis, que é afetado principalmente pelos juros ao consumidor, que estão em 54,4% — maior nível da série do Bacen — e pela disposição cada vez menor da renda. O quesito apresentou queda de 10,7% na comparação mensal. Em relação a 2014, o componente mostrou recuo de 36,6%.

Os problemas estruturais, que vão desde inflação elevada, juros altos, falta de competitividade da indústria e preços administrados até tantos outros são os motivadores da falta de confiança. No primeiro quadrimestre deste ano, a inflação, medida pelo IPCA, já superou a meta de 4,5% e é a maior taxa para o quadrimestre desde 2003. No ano passado, o índice estava em 2,86% no mesmo período. O índice acumulado em 12 meses está em 8,17%. Há um esforço da autoridade monetária para trazer a inflação para níveis aceitáveis e para influenciar as expectativas, a começar pela liberação gradual dos preços administrados. A elevação da Selic para 13,25% na última reunião também faz parte desse empenho do Bacen. No entanto, esse ajuste, somado ao das contas externas — ou seja, a manutenção do câmbio mais depreciado — elevará ainda mais o nível de preços neste ano e, assim, a convergência para a meta de inflação no ano seguinte se torna mais distante.

Os preços altos e os juros elevados são os principais fatores que geram o desaquecimento da demanda, impactando diretamente os resultados de vendas do varejo. De acordo com o IBGE, a queda de 0,9% nas vendas do varejo restrito em março, ante fevereiro, foi a maior para o mês desde 2003, quando a queda no mês de março foi de 2,4%. No primeiro trimestre do ano, o varejo teve recuo acumulado no volume de vendas de 0,8% na comparação anual — resultado mais fraco desde o terceiro trimestre de 2003 (-4,4%) e o pior resultado para um primeiro trimestre também desde 2003 (-6,1%). Os consumidores estão comprometendo cada vez mais o orçamento com itens básicos, como contas de água e luz, e também com dívidas já existentes, o que deixa poucas brechas para poupar e para despesas com bens de necessidade menos imediata.

A saída líquida da poupança já está em R$ 29 bilhões nos quatro primeiros meses do ano. É a maior retirada de recursos já ocorrida em toda a série histórica, iniciada em 1995, e já é maior que toda a entrada de recursos registrada no ano passado, de R$ 24 bilhões. Há algumas razões que podem explicar essa saída. Uma delas é a busca por investimentos mais vantajosos; e há também a questão da diminuição da renda disponível para poupar e o endividamento, que faz com que as famílias precisem resgatar as aplicações para honrar suas dívidas. Essa situação não deve ter solução no curto prazo, já que há ainda perspectivas de elevação nos níveis de preços e, por conta disso, de novas altas dos juros.

Portanto, ainda veremos números desanimadores para o varejo restrito e para o ampliado. Além dos efeitos na atividade, os juros básicos mais altos geram maiores custos financeiros para o governo e ganhos extraordinários para os detentores de liquidez. Assim, o aperto monetário que objetiva controlar a inflação prejudica o orçamento público e dificulta ainda mais as complicadas contas públicas, criando desajustes quando buscam resultados rápidos.

Outra variável que pressiona a inflação é o câmbio. Os Estados Unidos vêm apresentando melhores dados econômicos, o que suporta a tendência de valorização do dólar no longo prazo. Nesse sentido, a inflação também deverá sofrer essa pressão adicional, que poderá ser representada pelo repasse desses custos para as mercadorias importadas, ou para aquelas que dependem de matérias-primas importadas.

O cenário que estamos vivendo já há algum tempo, e mais intensamente neste ano, é consequência de um processo de expansão econômica baseado nos estímulos ao consumo. Para amenizar esse quadro, as políticas monetárias e fiscal estão sendo reorientadas desde o início do ano em busca de renovar e reorganizar as estruturas básicas para um crescimento sustentável. No entanto, para atingir esse objetivo, será necessário um custo social significativo ao longo dos próximos meses. Essas políticas mais recentes de ajuste fiscal e aperto monetário farão com que a atividade fique reprimida. E os efeitos já estão sendo vistos nos dados de emprego e renda real. A descompressão dos preços administrados e o ajuste cambial, apesar de trazerem desvantagens inflacionárias no curto prazo, em conjunto com a atividade em queda, abrem caminho para um possível arrefecimento da inflação nos próximos semestres.

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