A crise grega e o alívio externo

O provável default da Grécia e sua possível saída da zona do euro certamente causariam impactos negativos, mas crises sistêmicas não estão mais no radar

Por O Dia

Ao longo das últimas semanas assistimos o desenrolar de mais um capítulo da crise econômica da Grécia, que culminou, na semana passada, na rejeição em plebiscito de medidas de austeridade adicionais, colocadas como pré-requisitos para renegociar a dívida do país. Já era esperado que os gregos não conseguissem honrar os compromissos assumidos, já que as primeiras rodadas de reestruturação da dívida soberana, mesmo com as duras medidas de austeridade implantadas, não tiveram sucesso.

No entanto, mesmo com a Grécia caminhando para um default de sua dívida soberana e mais uma vez colocando em dúvida sua permanência na união monetária europeia, os impactos do resultado do plebiscito sobre os mercados e os preços de ativos foram limitados. Ainda que a Comissão Europeia, BCE e o FMI tenham procurado adiar uma resolução final, uma nova reestruturação da dívida grega já era esperada. Além disso, os possíveis impactos do write-off e da saída da Grécia da zona do euro não são tão dramáticos hoje como foram no passado recente. Os bancos europeus já estão capitalizados, e os demais países periféricos da zona do euro, que sofrem mais pelo efeito contágio, alcançaram posição macroeconômica mais sólida.

Problemas de solvência e liquidez externa têm sido frequentes na Grécia, que recebeu ajuda financeira por duas vezes no período pós-crise, em 2009 e em 2010. Mesmo após a intervenção do FMI e a reestruturação da dívida, em 2011 o Fundo declarou que a dívida soberana do país continuava insustentável e que eram necessários esforços adicionais de reestruturação e renegociação com os credores; e o país conseguiu, no ano seguinte, um abatimento estimado em 65% do valor de face das dívidas. Paralelamente, os bancos gregos foram capitalizados pelo Banco Central Europeu, para que se adequassem às perdas do write-off. Todos esses esforços mostraram-se insuficientes, pois, com a crise de confiança já instalada, uma corrida bancária começou, deixando os bancos ilíquidos.

Entretanto, o problema principal da economia grega não é de liquidez, e sim de solvência. Após a reestruturação, a dívida pública se reduziu significativamente, passando de 170% para cerca de 135% do PIB. Sem conseguir reduzir efetivamente o déficit das contas públicas e passando por uma recessão profunda, acentuada pelo ajuste fiscal, a relação dívida/PIB retornou rapidamente aos patamares observados antes da reestruturação. Com uma taxa de desemprego de 26% (51% entre os jovens), a maioria da população votou contra os termos propostos no novo socorro financeiro, que implicava austeridade adicional.

O caso da Grécia mostra que a economia mundial continua sob os efeitos negativos da crise de 2008. Os países da zona do euro continuam dependendo de políticas monetárias expansionistas e ainda não recuperaram a dinâmica de crescimento econômico. Adicionalmente, o processo de desalavancagem dos setores público e privado não se completou. Contudo, a resposta dos mercados à crise grega também mostra que os riscos sistêmicos diminuíram significativamente. O provável default da Grécia e sua possível saída da zona do euro certamente causariam impactos negativos, mas, diferentemente da situação vigente durante o processo de reestruturação inicial, crises sistêmicas não estão mais no radar, abrindo espaço para um processo mais longo de negociação entre gregos e credores.

Ainda há questões importantes que serão fonte de preocupações, envolvendo a normalização da política monetária dos Estados Unidos e a possibilidade de ajustes de distorções geradas pelo excesso de liquidez sobre preços de ativos. Entretanto, passamos a conviver com um cenário externo menos volátil, embora menos favorável, com consequências importantes para a economia brasileira.

Nos últimos meses, a taxa de câmbio sofreu um processo de ajuste importante. O real se desvalorizou de maneira significativa, acompanhando a mudança da posição externa, não apenas devido ao processo de normalização da política monetária estadunidense, mas também em relação a termos de troca menos favoráveis para o Brasil e os demais países produtores de commodities, déficit crescente nas transações correntes com o exterior e enfraquecimento dos fundamentos macroeconômicos.

Como decorrência do ajuste no câmbio, já foi possível observar uma melhora no resultado do balanço de pagamentos, ainda que este tenha sido proveniente de uma queda acentuada das importações. No médio e no longo prazo esse ajuste também contribuirá para aumentar a competitividade das exportações brasileiras. Com o cenário externo já delineado, as atenções voltam-se, agora, para os desequilíbrios internos. A política econômica atual busca retomar a credibilidade das contas públicas e do controle da inflação. Ao apertar a política monetária, o Banco Central do Brasil também adota uma postura defensiva diante de uma redução da liquidez internacional. Entretanto, assim como no caso grego, uma austeridade excessiva pode gerar um ajuste inócuo.

Por outro lado, a consistência fiscal é a âncora do processo de ajustes cujos excessos monetários podem comprometer a sustentabilidade da dívida — conquista arduamente obtida. É importante, agora, conciliar uma agenda que permita diferenciar a recuperação cíclica do ajuste necessário de médio prazo, para que o país possa voltar a crescer. A taxa de juros efetiva no Brasil situa-se nos mais altos patamares do período pós-crise. Tendo em conta que as expectativas inflacionárias estão cedendo, fica evidente que já estamos no limite do aperto monetário. Cabe ao Banco Central não exacerbar nos próximos aumentos da taxa Selic, a fim de não contribuir para o aprofundamento da recessão e para elevações desnecessárias do endividamento público. É importante aprender as lições do endividamento excessivo pelo qual o Brasil passou várias vezes. E agora, há o exemplo grego e de outros países.

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