Por monica.lima
Publicado 31/03/2014 17:35

31 de março de 1964. Dia de festa na casa da vila da Tijuca para comemorar o 12º aniversário de Maria Cecília, a Neném. Havia grande tensão política no ar, mas se aguardava um parente muito querido: o coronel Dagoberto Rodrigues, padrinho de Cecília, que era diretor geral do Departamento de Correios e Telégrafos (DCT), autarquia responsável pelas comunicações no País. Tio Dagoberto não faltou. Fez questão de dar os parabéns na caçula de Álvaro e Rafaela. Chegou com Ita e os cinco filhos e trouxe, como sempre, uma garrafa de Black & White para o brinde.

De repente, uma pessoa bateu à porta e chamou o coronel. Conversaram por minutos e Dagoberto retirou-se às pressas. Antes explicou ao cunhado que havia uma tentativa de golpe contra o governo e pediu a Ita que permanecesse na Tijuca.

A festa continuou, Cecília soprou as velas, mas começaram a chegar mais informações. Tropas e tanques vinham de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro sob o comando do general Olympio Mourão Filho para derrubar João Goulart. O governador do Rio, Carlos Lacerda, um dos mais ferozes líderes da oposição, aderiu ao movimento e fazia um estardalhaço no Palácio Guanabara, de casaco de couro e metralhadora na mão. Os governadores de Minas e de São Paulo também apoiavam a quartelada. E alguns generais que tentavam tomar o poder desde o suicídio de Vargas em 1954 estavam envolvidos na conspiração. Com o apoio dos Estados Unidos, eles orquestravam um golpe, que foi precipitado pela iniciativa de Mourão.

Na casa da Tijuca, Ita e seus filhos foram acomodados na sala. Os adultos não conseguiram dormir. Houve muita notícia desencontrada durante a madrugada. Mas a rebelião do general Mourão Filho ganhava corpo. Com o ministro da Guerra, Jair Dantas Ribeiro, no hospital convalescendo de uma operação, o presidente João Goulart, que passara a Semana Santa no Rio, fazia contatos com outros comandantes militares em busca de apoio. Além do III Exército, fiel a ele desde a campanha da legalidade em 1961, Jango fazia pressão sobre o general Amaury Kruel, seu compadre e comandante do II Exército, de São Paulo, uma força decisiva. Kruel titubeava.

Leonel Brizola e Rubens Paiva usaram o rádio para pedir apoio dos sindicatos ao governo. Na sede do DCT, na Praça XV, no Rio, o coronel Dagoberto tentou montar um núcleo de resistência, reunindo marinheiros, fuzileiros navais, trabalhadores e estudantes. O presidente da UNE, José Serra, estava lá. O comandante da Base Aérea de Santa Cruz, coronel Rui Moreira Lima, herói da II Guerra Mundial, fez um rasante sobre as tropas de Mourão e pediu autorização para "bombardear as posições". Jango não deu a ordem e deixou o Rio de manhã num voo solitário para Brasília. Os tanques que defendiam a sede do DCT voltaram seus canhões para o gabinete de Dagoberto. Ele, então, pediu a Serra e aos demais que se retirassem.

Em seu livro "1964: o golpe", o jornalista Flávio Tavares, que acompanhou os fatos no Palácio do Planalto, é taxativo. "Em vez de resistir, (Jango) vai negociar. Seu estilo foi sempre esse e essa é a sua natureza. E ninguém pode fugir daquilo que é. Pode-se fugir de tudo, até do conturbado Rio de Janeiro nesse úmido 1º de abril de 1964, mas ninguém foge de si mesmo". Jango preferiu não lutar. Dagoberto viveu 15 anos no exílio. Só voltou à Tijuca no fim de 1979. A democracia voltou ainda mais tarde, em 1985.

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