Por monica.lima

Mesmo durante a ditadura militar, o IBGE e o Ipea conseguiram preservar a credibilidade. Em suas órbitas de atuação, mantiveram-se como órgãos de Estado, e, não, instituições a serviço deste ou daquele governo. O carioca Isaac Kerstenetzky, egresso da Fundação Getúlio Vargas e especializado em planejamento econômico pela Universidade de Haia, comandou o IBGE de 1970 a 1979 e incentivou pesquisas sobre a concentração de renda a partir de amostras por domicílio, para irritação do então ministro da Fazenda, Delfim Netto. No Ipea, subordinado ao ministro Reis Velloso, do Planejamento, economistas críticos do “milagre brasileiro” escreviam o que bem entendiam, entre eles, Edmar Bacha, Dionísio Carneiro e Pedro Malan.

Com seus estudos, alimentavam órgãos de imprensa que, apesar da censura, davam combate à política de Delfim.

O ex-ministro Mário Henrique Simonsen contava que Dionísio Carneiro, Francisco Lopes e Rogério Werneck chegaram a trabalhar na FGV a seu convite. Mas, quando Carlos Langoni, de formação monetarista, assumiu a Escola de Pós-Graduação em Economia, passou a pressionar o grupo que tinha visão menos conservadora. Todos saíram da FGV e, sob a proteção de Reis Velloso, prosseguiram suas pesquisas no Ipea. No relato irreverente de Simonsen, eles constituíram no Ipea uma espécie de “EPGE do B”. O jovem Pedro Malan, que se tornou presidente do Instituto de Economistas do Rio de Janeiro com o apoio de Maria da Conceição Tavares, também participou desse time. Delfim engolia em seco, mas não interferia na esfera de Velloso, no Planejamento.

Diante desse histórico de autonomia, chamam atenção os episódios recentes envolvendo o Ipea e o IBGE. No Ipea, ainda no governo Lula, houve forte reação à tentativa de aparelhamento pelo petista Marcio Pochmann. Assim que chegou à presidência do instituto, ele afastou quatro economistas, um deles Fabio Giambiagi que lá estava cedido pelo BNDES e é especialista nos gargalos da Previdência. O expurgo só não foi maior porque o corpo técnico resistiu. Hoje, quem comanda o Ipea é Marcelo Neri, professor da EPGE, que se destacou ao apontar a ascensão da nova classe média. Neri ampliou o foco do órgão, disposto a reforçar aspectos sociais. Há duas semanas, porém, um erro grosseiro em pesquisa sobre o machismo dos brasileiros chamuscou a imagem do Ipea. Uma rudimentar troca de gráficos confundiu 65% com 26%. O que não pode acontecer.

Na semana passada, a desconfiança mudou de endereço e bateu na porta do IBGE. Debaixo de fogo da senadora Gleisi Hoffmann, a direção do IBGE suspendeu a divulgação trimestral da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, a Pnad Contínua. O levantamento fornece dados sobre a renda familiar per capita e serve de base para a distribuição do Fundo de Participação dos Estados. Segundo Gleisi, seus resultados não batem com o antigo critério de PIB per capita. Os responsáveis pela pesquisa consideraram a suspensão da Pnad “inaceitável” e puseram os cargos à disposição. A diretora Marcia Quintslr também pediu exoneração. Para Wasmália Bivar, presidente do IBGE, a reação é justa. Ela reconhece que não consultou o corpo técnico e desde sexta-feira tenta dialogar. Aos 143 anos, essa é a pior crise na história do IBGE. E é péssima para imagem do órgão que elabora as principais estatísticas do País. O IBGE e o Ipea são como a mulher de Cesar. Não basta serem sérios. Têm de parecer sérios.

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