Por douglas.nunes

Em rápida entrevista ontem, após palestra na Confederação Nacional da Indústria, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, negou terminantemente que o governo esteja estudando mudanças na fórmula que mede a taxa de inflação. Matéria publicada no jornal “O Globo” diz que alguns técnicos do governo defendem a retirada dos alimentos in natura do cálculo do Índice de Preços ao Consumidor Amplo, o termômetro que orienta a política monetária.

Na avaliação dos críticos do método em vigor, altas de produtos como o tomate e o chuchu não deveriam exercer influência sobre o IPCA, “porque não são insubstituíveis”. Eles citam o exemplo dos Estados Unidos, onde não há alimentos no índice oficial de inflação. Mantega, porém, foi taxativo: “Não sei quem tirou essa ideia. 

Ela não procede. Os Estados Unidos retiram alimentos e combustível. Não fazemos isso e continuaremos da mesma maneira, usando os mesmos critérios”.

Está certo. Homem de palavra, o ministro é contra mudanças no cálculo do IPCA. Mas onde há fumaça, há fogo. Não é de hoje que técnicos da Fazenda fazem pressão pela supressão dos produtos in natura. Afirmam que, se determinado alimento sobe de preço por motivos climáticos ou sazonais, o consumidor busca alternativas. Na reportagem desautorizada por Mantega, uma das fontes dá o exemplo do morango. Segundo o entrevistado, “ninguém come morango o ano inteiro”. Esse mesmo argumento foi exaustivamente usado pelo ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen, em 1977, quando anunciou uma série de medidas para impedir que alta dos preços do chuchu contaminasse o índice de correção monetária que regia todos os contratos do País. O episódio entrou para o folclore da economia como “a inflação do chuchu”.

Mais ou menos como o Banco Central de Tombini, Simonsen concluiu que as medidas de austeridade monetária não surtiam efeito por causa das intempéries naturais. Em 1977, pressionado pela seca e pela chuva, o item Alimentação subiu 16,5% em apenas três meses. De abril a abril, a inflação chegou a 46,4%. Em reportagem de capa na época, a Veja (então, imparcial) apontou a inflação como inimigo público nº 1 e atirou pesado em Simonsen, acusando-o de trocar o termômetro para combater a febre. Obediente ao ministro, a FGV em março daquele ano havia mudado o cálculo. O novo sistema expurgou parcialmente o preço de alimentos com oscilação fora do padrão. Partindo do “pressuposto que, à medida que os preços aumentam, as pessoas diminuem ou substituem seu consumo”, Simonsen afirmava que o expurgo reparava “acidentalidades”. Curiosamente, uma dona de casa ouvida numa feira por Veja, confirmou o raciocínio do ministro: “Se eu levo mamão, não compro melão. A manteiga substituí por margarina e o iogurte não compro mais”.

Ao contrário de Simonsen, que se preocupou em dar um verniz técnico à troca do termômetro, Antônio Delfim Netto manipulou o índice em 1973 na cara de pau e garantiu que a alta foi de apenas 12%. Todo mundo sabia que era mentira. Mesmo sob forte censura, o Departamento Intersindical (Dieese), que fazia acompanhamento paralelo, anunciou que a inflação bateu em 23%, para total desmoralização do governo. Delfim era mais truculento do que Simonsen. Mas o importante é que os expurgos da inflação pertencem aos dias de regime autoritário. Índices sob encomenda não se sustentam na democracia. É bom arquivar a ideia de jerico.

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