Mantega e o pessimismo

Em estudo sob o título “Perspectivas econômicas das Américas, desafios crescentes”, o FMI afirma que o Brasil este ano deve crescer menos que a média mundial de 3,5%

Por O Dia

A temporada de más notícias continua. Nesta quinta-feira, para não perder o hábito, o Fundo Monetário Internacional voltou a atirar pesado na economia brasileira. Em estudo sob o título “Perspectivas econômicas das Américas, desafios crescentes”, o FMI afirma que o Brasil este ano deve crescer menos que a média mundial de 3,5%. Com evolução do PIB abaixo de 2%, também ficará atrás da América Latina (2,5%) e dos países emergentes (4,9%). Na visão do Fundo, o mau desempenho é reflexo da perda de competitividade, da queda na confiança dos empresários e do aumento no custo dos financiamentos. Resumo da ópera: o Brasil vai pagar caro pelas limitações na área de infraestrutura e pelo fôlego curto do investimento privado. O diagnóstico não é novo e faz coro com a opinião de economistas respeitados no eixo Rio-São Paulo.

A análise do FMI sobre a inflação também está em sintonia com o que diz o mercado. Na última segunda-feira, a pesquisa Focus, resultado da consulta do Banco Central com as principais instituições financeiras, apontou uma taxa anual de 6,51%, acima, portanto, do teto da meta oficial, de 6,50%. O Fundo segue o mesmo diapasão. Considera que o ajuste da política monetária, por si só, não será capaz de afastar a taxa de inflação do teto da meta e cita os motivos: capacidade de produção limitada, a inflação inercial e o impacto da alta do dólar sobre os preços no mercado doméstico. Destaca ainda que os subsídios ao setor elétrico vão ter consequências para o resto da economia e para as finanças públicas.

À medida que a leitura pessimista se transforma em consenso, aumentam as pressões sobre o ministro Guido Mantega, que acaba de se tornar o titular da Fazenda mais longevo da história do País. Na democracia, ele ultrapassou os oito anos de Pedro Malan e não perde para ninguém. Mesmo Artur de Souza Costa, durante a ditadura Vargas, cumpriu um mandato intermitente, pois teve de se afastar do cargo em algumas ocasiões. Mantega não concorda com o pessimismo reinante e reafirma quase diariamente que a inflação está sob controle e fechará o ano dentro da meta. Pode escapar nos próximos meses, sob influência da alta dos alimentos e da energia, mas depois se enquadrará. Ao que tudo indica, a presidente Dilma concorda com a previsão e confia em seu ministro.

Mas há, obviamente, certa fadiga. O próprio Guido Mantega admite que não tem disposição para permanecer no cargo, caso Dilma seja reeleita. Em dezembro, serão quase nove anos na Esplanada dos Ministérios. Com erros e acertos, está de bom tamanho. E é natural que o mercado especule sobre quem será o ocupante da vaga estratégica. Os citados são o ex-secretário-executivo da Fazenda, Nelson Barbosa, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini. Esse último, se emplacar, repetirá a trajetória de Pedro Malan, pulando direto do BC para a Fazenda. O Palácio do Planalto faz silêncio e diz que é cedo para falar sobre o assunto. Em primeiro lugar, vem a disputa eleitoral que já está correndo solta, mais à frente, se Dilma for reeleita, a escolha dos novos ministros. A oposição, sim, tem a obrigação de mostrar serviço. Não pode ficar de conversa confiada. Se promete crescimento alto e inflação nanica, é hora de pôr na mesa os nomes dos futuros responsáveis pela economia.

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