Por bruno.dutra
Publicado 03/06/2014 23:04

O objetivo era encarecer o crédito e quebrar a expectativa de consumidores e empresários. A resposta dos agentes econômicos nunca é imediata e o BC continuou a apertar o torniquete sem dó. Em 12 meses aumentou a Selic em 3,5 pontos percentuais, elevando-a de 7,5% ao ano para 11%. Como houve forte inflação de alimentos no período, defasagem maior do que a habitual e os preços demoraram a ceder. Mas o impacto do aumento dos juros sobre a economia foi inevitável. Caiu o consumo das famílias e também a disposição de investimento dos empresários. Por isso, soa incoerente o espanto com o modestíssimo crescimento do primeiro trimestre, de apenas 0,2%. A política monetária colheu o que plantou.

As previsões para o segundo trimestre também não são boas. A taxa de investimento permanece em baixa e as famílias continuam na retranca. Além da menor demanda por crédito, o setor de serviços, que vinha ajudando a sustentar o PIB, perde fôlego. Diante desses sinais, alguns economistas ajustam as contas e fazem previsões bastante pessimistas. Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú, já trabalha uma retração econômica de 0,2% entre abril e junho. “Com o resultado mais fraco do PIB no primeiro trimestre, aliado à perspectiva de queda do PIB para o segundo trimestre, acreditamos que a economia dificilmente conseguirá crescer acima de 1% em 2014”, afirmou ele, em artigo publicado ontem.

Na pesquisa Focus, que dá a média das principais instituições financeiras, a projeção não é tão baixa, mas também caiu de 1,63% para 1,5% esta semana. O pior dos sintomas, segundo os analistas, é a queda na taxa de investimento, sem falar no recuo do consumo. Como agravante, vem a notícia de que montadoras de automóveis e fabricantes de eletrodomésticos decidiram dar férias coletivas aos empregados este mês, já que a produção cairia em razão dos feriados da Copa. Apontam desaquecimento no mercado interno e estoques elevados. Na Zona Franca de Manaus, estima-se que cerca de 40% dos trabalhadores dos principais fabricantes ficarão em casa por dez dias a partir da semana que vem. Com as manifestações contra a Copa, as vendas de televisores teriam ficado abaixo do esperado. E quem comprou tevê adiou o consumo de eletrodomésticos da linha branca.

Até mesmo o governo parece conformado. Em entrevista em Londres, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, afirmou que “2014 é um ano de incerteza” e que está “preocupado com a moderação dos recursos privados”. Exemplo dessa moderação é a queda de 23,8% na compra de maquinário industrial na comparação entre maio deste ano e maio do ano passado. Para José Augusto Castro, da Associação do Comércio Exterior do Brasil (AEB), “isso mostra claramente o adiamento ou o cancelamento de investimento”. A indústria, portanto, fez o que se esperava como reação ao aumento dos juros: pôs o pé no freio.

Em compensação, também como previsto, a inflação está em queda. O índice de inflação ao consumidor em São Paulo, medido pela Fipe, ficou bem abaixo das previsões do mercado e subiu somente 0,25% em maio contra 0,53% em abril. Logo, se a prioridade do BC até agora foi o combate à inflação, chegou a hora de reabrir as torneiras do crédito e reativar o crescimento.

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