A ordem perfeita do Copom

Nada como a leitura de uma ata do Comitê de Política Monetária para mudar de opinião sobre os rumos da economia brasileira

Por O Dia

Os diretores do Banco Central que compõem o órgão responsável pelo nível da taxa básica de juros sempre demonstram um equilíbrio invejável. Parece que deixam a emoção do lado de fora da sala em que se reúnem na sede imponente do BC, em Brasília. A ata da 184ª reunião, realizada na semana passada, manteve a tradição. Embora seja crescente a apreensão entre economistas e empresários, o Copom vê todos os fatores macroeconômicos em ordem. Admite que o ritmo de expansão da atividade doméstica “tende a ser menos intenso este ano em comparação ao de 2013”, mas aposta que, no médio prazo, haverá maior equilíbrio na composição da demanda e da oferta. “O consumo tende a crescer em ritmo mais moderado e os investimentos tendem a ganhar impulso”, profetiza a ata.

Se o leitor está preocupado com o impacto negativo de mudanças na economia internacional, provocadas, por exemplo, pela provável alta de juros no EUA, pode desarmar o espírito. A visão do BC “no que se refere ao componente externo da demanda agregada” é de um otimismo impressionante. Diz a ata: “O cenário de maior crescimento global, combinado com a depreciação do real, milita no sentido de torná-lo mais favorável ao crescimento da economia brasileira”.

Num prazo mais longo, o Copom também aponta perspectivas mais favoráveis à competitividade da indústria e da agropecuária. E considera plausível que isso se traduza em alocação mais eficiente dos fatores de produção e em ganhos de produtividade. Ou seja, tudo sairá às mil maravilhas e a a velocidade desses ganhos será ainda mais rápida se houver fortalecimento da confiança de firmas e famílias.

Nesta perspectiva de solidez econômica, o único fator que preocupa o Banco Central é a taxa de inflação, que, segundo a ata, “ainda mostra resistência”. Entende o Copom que concorrem para essa resistência dois importantes processos de ajuste em curso na economia: o realinhamento dos preços domésticos em relação aos internacionais e o realinhamento dos preços administrados em relação aos livres. Esses ajustes de preços relativos têm impacto direto sobre a inflação e a saída é apertar as condições monetárias. Disposta firmemente a fazer com que a taxa de inflação se encaminhe para o centro da meta nos próximos trimestres, a diretoria do BC afirma que não pensa em reduzir “o instrumento de política monetária” – em linguagem direta, não pretende reduzir os juros tão cedo.

Na interpretação do Banco Itaú, isso quer dizer que a Selic será mantida em 11% até 2016. O Departamento de Estudos Econômicos do Bradesco preferiu não fixar um prazo, mas concordou que a expressão “trimestres finais” significa que os juros básicos ficarão onde estão por período bastante prolongado. Para quem ficou perplexo com essas previsões, recomenda-se a leitura atenta da ata.

“Embora reconheça que outras ações de política macroeconômica podem influenciar a trajetória dos preços, o Copom reafirma sua visão de que cabe especificamente à política monetária manter-se especialmente vigilante, para garantir que pressões detectadas em horizontes mais curtos não se propaguem para horizontes mais longos”.

Em suma, por mais amarga que seja a taxa Selic de 11%, não haverá alívio no garrote de juros até o fim do atual governo.

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