Entrevista não é confete

Militantes do PT e sites que fazem defesa apaixonada do governo ficaram revoltados com a atitude de William Bonner e Patricia Poeta durante a entrevista com Dilma Rousseff no “Jornal Nacional” de segunda-feira

Por O Dia

Dizem que a dupla da TV Globo foi agressiva e desrespeitosa com a presidente da República, principalmente ao fazer perguntas sobre corrupção, saúde e economia. Chegaram até a contar as vezes em que Bonner interrompeu Dilma. Faltam 45 dias para a eleição e é natural que os ânimos fiquem exaltados. Mas a reação do bloco governista chega a ser curiosa. Em primeiro lugar, embora recebidos no Palácio da Alvorada, os dois jornalistas estavam ali para ouvir a candidata à reeleição, e não a presidente. Em segundo lugar, a dupla comportou-se com total isonomia, pois também havia fustigado o tucano Aécio Neves e o ex-governador Eduardo Campos, que morreu no dia seguinte à entrevista.

Na primeira sabatina da série com os presidenciáveis, Aécio Neves não escondeu o nervosismo e exibiu um sorriso amarelo quando duramente questionado sobre a a construção do aeroporto em terreno de seus parentes na cidade de Cláudio, em Minas. A obra foi realizada ao tempo em que Aécio era governador do Estado.

Sem graça, o tucano repetiu suas explicações, garantindo que se tratou de investimento de interesse público. Houve quem dissesse que se perdeu muito tempo com uma questão menor. No caso de Eduardo Campos, as perguntas mais polêmicas envolveram o apoio que ele deu à indicação de sua mãe, Ana Arraes, para o Tribunal de Contas da União. Campos lembrou que a nomeação passou pelo Congresso e ressaltou que Ana Arraes, advogada e ex-deputada federal, tem plena qualificação. Não gostou da insistência, mas se saiu bem melhor do que Aécio Neves.

Entrevistas com candidatos à Presidência são excelentes oportunidades para se conhecer cada um deles. Nada têm a ver com os programas do horário eleitoral, nos quais os concorrentes apresentam seus dotes, prometem milagres e tecem maravilhas sobre suas realizações. Quem viu ontem o início dos programas na TV já sabe o que vem por aí. Há que separar o bom jornalismo da propaganda partidária.

Enquanto os marqueteiros vendem as qualidades de seus clientes, espera-se que os jornalistas pressionem os entrevistados e tirem deles respostas objetivas para os problemas do país. Vale lembrar um velho jargão da profissão: não existem perguntas indiscretas. Cabe ao entrevistado respondê-las ou não. Eis um exemplo famoso: em 1985, candidato favorito à prefeitura de São Paulo, Fernando Henrique Cardoso disse na TV que não acreditava em Deus. Perdeu a eleição.

Pela reação indignada na internet, conclui-se que alguns petistas consideraram impróprias, por exemplo, as perguntas sobre gargalos na Saúde. Seria recomendável que lessem a pesquisa do Datafolha para o Conselho Federal de Medicina a respeito dos serviços de Saúde. Segundo o levantamento, 60% dos entrevistados classificaram o atendimento de ruim e péssimo, com nota de zero a quatro, numa escala até 10. Por sinal, a Defensoria Pública da União recorreu ontem à Justiça para que o governo apresente, em 160 dias, um plano para reduzir a fila de espera de 14.077 pessoas no Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), no Rio.

Temas como a Saúde são inevitáveis. Estão em pauta e voltarão à cena nos debates e nas entrevistas. Goste-se ou não.

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