Por douglas.nunes

Há um mês da realização do primeiro turno, está todo mundo fazendo contas. De certo, há apenas a constatação de que dificilmente alguém sairá vencedor no dia 5 de outubro. Como disse o ex-presidente Lula, o Brasil viverá o mais longo segundo turno da história. O cientista político Antônio Lavareda, do alto de sua experiência em pesquisas eleitorais, vai ainda mais longe: “Pela tendência atual, só uma bomba de Hiroshima impedirá o segundo turno”. A disputa, obviamente, deve se dar entre a presidente Dilma Rousseff e a ex-ministra Marina Silva. O tucano Aécio Neves está fora do páreo, mas não deve se desmilinguir a ponto de possibilitar uma decisão no primeiro turno. Esta hipótese, que chegou a ser cogitada diante do crescimento da candidata do PSB, não resistiu às mais recentes pesquisas do Ibope e do Datafolha.

Mas o que se pode esperar de Dilma e Marina daqui em diante? Os especialistas não se arriscam a fazer análises definitivas. Mas Lavareda adverte que é importante, acima de tudo, examinar o pano de fundo que levou à atual polarização. Desde as manifestações de junho do ano passado, predomina no país o desejo de mudança. Mas não de uma mudança total, pois, se assim fosse, a presidente Dilma não se manteria no sólido piso de 1/3 das intenções de voto. Dilma tem o que mostrar e é osso duro de roer. Por outro lado, se havia demanda por mudanças, não existia uma oferta política que correspondesse a essa demanda. Os eleitores insatisfeitos não se identificavam nem com Eduardo Campos, nem com Aécio. A oferta ganhou vida com a candidatura de Marina, que havia alcançado 29% das intenções de voto em pesquisas divulgadas em outubro de 2013. E também surfou na emoção.

O páreo, portanto, é de chegada imprevisível. Dilma, porém, dispõe de uma poderosa arma a seu favor: a enorme diferença de tempo na campanha eleitoral na TV. São quase 12 minutos no horário nobre, entre o Jornal Nacional e a novela, contra apenas dois minutos de Marina. É um verdadeiro massacre. Até o fim da campanha do primeiro turno no dia 2 de outubro, Dilma vai dispor de quatro horas e 22 minutos. Marina terá somente 47 minutos. O latifúndio midiático permitirá que Dilma se mostre competitiva em relação à adversária, preparando o terreno para o segundo turno. A única alternativa de Marina é criar fatos e gerar notícias que ocupem espaço nos meios de comunicação tradicionais.

Outra vantagem de Dilma é a caneta na mão. Mesmo em meio ao processo eleitoral, a presidente não está impedida de adotar medidas populares. O índice de aprovação de seu governo melhorou, mas ainda é baixo, em torno de 35%. O ideal é atingir os 40%. Já Marina não tem muito a fazer, a não ser a tentativa de alimentar o índice de rejeição da petista. O tucano Aécio Neves, pelo visto, não abandonará a disputa, o que cria um teto para a ascensão da ex-ministra no primeiro turno, tendência confirmada pelas pesquisas.

Independentemente de acidentes de percurso, o grande trunfo de Dilma é mesmo a televisão. Sua reeleição está nas mãos do criativo marqueteiro João Santana. Na juventude, ele era chamado pelos amigos de “Tio Patinhas”, pela facilidade com que conseguia levantar recursos para os projetos da turma que frequentava as dunas do Abaeté, em Salvador. Agora, o desafio de Santana é abrir caminho para a vitória de Dilma Rousseff.

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