Por parroyo

Diante da possibilidade de Dilma Rousseff ganhar a eleição no primeiro turno, bateu o desespero no mercado financeiro. Ontem, o dólar subiu mais de 1,6%, atingindo a maior cotação desde o fim de 2008. A moeda americana chegou a ser cotada a R$ 2,48 na abertura dos negócios, como reflexo da pesquisa Datafolha divulgada na noite de sexta-feira. Na Bolsa de Valores, a reação também foi de muito nervosismo. Depois de cair quase 5%, o Ibovespa operou em forte baixa durante a maior parte do pregão, fechando em queda de 4,5%. Segundo o diretor da corretora de câmbio Pioneer, João Medeiros, ouvido pelo site de “O Globo”, “o mercado hoje reflete o quadro eleitoral”. Ou seja, “quando a Dilma sobe, a Bolsa desmonta e o câmbio sobe firme”. Se não bastasse, há, no momento, uma tendência global de fortalecimento do dólar, sob influência das previsões de aumento dos juros pelo Federal Reserve.

A própria Dilma Rousseff já explicou que não vê muito sentido o movimento especulativo em torno das eleições. Em entrevista recente, no Palácio da Alvorada, a presidente chegou a brincar ao responder a uma pergunta sobre a oscilação da Bolsa em função das pesquisas de opinião. “Acho ótima a reação da Bolsa. Quando a Bolsa cai, eu falo: será que eu subi?”. Mas depois não escondeu sua irritação: “Está ficando ridículo. Especulação tem limite. E acho que tem gente ganhando com isso. E eu não sou. Eu perco”. Ao concluir, voltou a demonstrar seu desconforto com o sobe e desce dos índices. “Eu acho desagradável o fato de acharem que uma coisa está vinculada à outra, quando sobe ou quando desce”.

A presidente não está sozinha em suas críticas. Muita gente que acompanha o dia-a-dia da economia também olha com estranheza o clima de tensão no mercado financeiro. Endossam a suspeita de Dilma de que alguém está ganhando dinheiro com a especulação. “A Bolsa é assim mesmo. Ali ninguém prega prego sem estopa. E quem sempre perde são os incautos”, dizem, em coro, os que desconfiam da racionalidade do mercado de ações. Como prova de que há exagero nas oscilações é citada uma entrevista à revista Veja do ex-diretor do Goldman Sachs, Ricardo Lacerda, fundador BR Partners, banco de investimento especializado em fusões e aquisições. “O mercado tem o direito de especular sobre o que bem entender, mas isso não quer dizer que esse movimento tenha tanta importância. Vejo esta histeria das bolsas como um movimento artificial”, afirmou Lacerda, que chefiava o banco americano no Brasil quando foi lançado o Lulômetro, o indicador que media os temores com a eleição de Lula.

Na opinião do banqueiro, é altamente viável a reaproximação da presidente Dilma com o setor privado após a reeleição: “Basta um nome de credibilidade no comando da economia e uma política fiscal séria para as coisas voltarem aos eixos”. Ricardo Lacerda tem larga experiência e sabe o que diz. Tanto é verdade que o presidente interino da Fiesp, o empresário Benjamin Steinbruch, dono da Companhia Siderúrgica Nacional e um crítico ácido do governo, disse à “Folha” que está revendo sua posição por causa das recentes medidas de apoio à indústria. Ontem, por sinal, o ministro Guido Mantega esteve na Fiesp anunciando um novo pacote de incentivos ao setor exportador. Steinbruch não declarou o voto, mas disse que pode “até dilmar”. O mercado, portanto, além de volátil, é volúvel.

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