Por bruno.dutra

Em agosto, pelo quarto mês seguido, as contas públicas fecharam no vermelho. O rombo de municípios, estados, União e empresas estatais totalizou R$ 14,5 bilhões. Segundo o Banco Central, é o pior resultado para o mês de agosto desde o início da série histórica em 2001. Com isso, o superávit acumulado em doze meses não passou de R$ 47,5 bilhões, apenas 0,94% do Produto Interno Bruto. O nível está muito aquém da meta de 1,9% do PIB prevista pelo ministro Guido Mantega, cujo otimismo não resistiu à queda da atividade econômica e às medidas de renúncia fiscal. Este, porém, não é um problema do Banco Central. “A questão do cumprimento da meta tem de ser endereçada ao Ministério da Fazenda”, explicou o chefe do Departamento Econômico do BC, Túlio Maciel, ao anunciar os números.

Na segunda-feira, o BC deu outra prova de autonomia, ao divulgar o relatório trimestral de inflação. No documento, a equipe encabeçada por Alexandre Tombini deixou claro que a taxa Selic vai permanecer nos atuais 11% ao ano por período prolongado. Explicou o BC que, levando em conta “estratégia que não contempla a redução do instrumento de política monetária”, a inflação tende a convergir para a meta “nos trimestres finais “do horizonte de projeção”. Para o Departamento de Estudos Econômicos do Bradesco, trata-se de uma sinalização de que a taxa de juros de 11% será sustentada até o final de 2015.

O BC também revisou a previsão de crescimento do PIB do ano, de 1,6% para 0,7%, e deu a entender que não há motivo para se contar com recuperação em 2015. Além de mostrar preocupação com o reajuste dos combustíveis e das tarifas, o relatório adverte para o risco de “potencial depreciação do real, em um contexto de realinhamento de preços domésticos e internacionais”.

O diagnóstico não poderia ser mais realista e contundente. Sabe-se também que a área técnica do BC atribui parte dos problemas da economia à expectativa negativa de consumidores e empresários. A quebra de confiança abate-se sobre o nível de investimentos, produção e consumo. O cenário gera apreensão e faz algumas pessoas que acompanham a corrida sucessória levantarem a seguinte questão: Se a conjuntura econômica é tão negativa, por que a presidente Dilma Rousseff está disparando nas pesquisas?

Para elas, haveria um claro paradoxo entre a escolha dos eleitores e o insucesso da política de Mantega. Em primeiro lugar, vale esclarecer que o eleitor não tem qualquer obrigação de ser coerente. Na França, por exemplo, costumava-se dizer que os franceses tinham o coração na esquerda mas guardavam a carteira no bolso direito. Na hora da verdade, pendiam para a direita e votavam nos candidatos conservadores, para decepção do Partido Socialista, que foi derrotado por várias décadas.

No caso do avanço de Dilma, não há incoerência ou contradição. A presidente cresce nas regiões e nos grupos sociais mais beneficiados pelos políticas públicas dos 12 anos de governos petistas. Por mais complexo que seja o quadro da economia, as famílias que melhoraram de vida com os programas de renda ainda não foram atingidas. E não querem trocar o certo pelo incerto. Fala mais alto a economia doméstica. Por isso, a nova classe média vota em Dilma. E pode fazer a diferença ainda no primeiro turno.

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