Por bruno.dutra

Ao derrotar Aécio Neves pela exígua margem de 3,2%, Dilma Rousseff tornou-se a presidente eleita com a vantagem mais baixa de toda a história republicana, a contar de 1894. Seu recorde negativo superou os 5,4% que separaram Juscelino Kubitschek de Juarez Távora em 1955. E também é inferior ao resultado de Collor contra Lula, em 1989, quando a diferença foi de 6,1% .

No caso de JK, vale lembrar, que não havia segundo turno. Mas, diante da pequena diferença, raposas da UDN, o partido de Távora, chegaram a questionar a legitimidade da eleição. Diziam que JK com 35,68% dos votos contra 30,27% do candidato da UDN e 25,77% de Ademar de Barros não alcançou a maioria absoluta. Golpistas inveterados, os udenistas fingiam esquecer que não havia esta exigência constitucional.

Os tempos são outros. Dilma ganhou por pouco, mas com direito a todas as honras. Como acontece nas democracias, o próprio adversário Aécio Neves apressou-se em cumprimentá-la, em telefonema na noite de domingo. “Desejei a ela sucesso na condução do seu próximo governo”, informou o tucano.

A vitória de Dilma é inquestionável. Reeleita, caberá a ex-guerrilheira da VAR-Palmares governar o Brasil até 2018 e, depois disso, aos 71 anos, retirar-se para o merecido descanso das tarefas executivas, como fizeram os ex-presidentes Lula e Fernando Henrique Cardoso. Dilma já é personagem da história. Situação bem diferente vive seu partido, o PT, que vê seu prestígio se reduzir a cada eleição. Quando se analisa o pleito deste ano, constata-se que o PT, ao contrário de Dilma, tem fartos motivos para se preocupar.

No primeiro turno, o desempenho do PT foi sofrível. De 27 vagas em disputa para o Senado, o partido conquistou apenas duas: no Pará, com Paulo Rocha, e no Rio Grande do Norte, com Fátima Bezerra. Na próxima legislatura, terá 13 senadores contra 19 do PMDB. Na Câmara, o golpe foi ainda mais duro e o PT perdeu 18 cadeiras. De 88 deputados, contará agora com 70, muito perto dos 66 parlamentares do PMDB.

No balanço dos governos estaduais, houve a surpreendente derrota de Tarso Genro no Rio Grande do Sul e também a humilhante rejeição dos brasilienses ao governador Agnelo Queiroz, que não passou sequer para o segundo turno. Graças à eleição do ex-ministro Fernando Pimentel em Minas Gerais, o partido conseguiu se manter com cinco estados, empatado com o PSDB, mas atrás novamente do PMDB, que fez sete governadores.

Mesmo com a vitória de Dilma, o detalhamento dos votos não trouxe boas novas para o PT. A presidente deu uma lavada no Nordeste, mas foi mal no Centro-Oeste, no Sul e em parte do Sudeste. Em São Paulo, ela perdeu para Aécio por quase 7 milhões de votos. O desempenho de Dilma no Nordeste e nas áreas mais pobres de Minas Gerais e do Rio de Janeiro mostra que sua votação está atrelada à influência dos programas sociais do governo. Nas regiões que mais recebem o Bolsa Família, no interior de Pernambuco, da Bahia e do Ceará, a presidente fez a festa, com mais de 70% dos votos.

Pode-se afirmar que o PT, hoje, tornou-se hegemônico nos grotões do país. Mas perdeu a força e o carisma nas grandes capitais e nos polos industriais. Isso vale até mesmo para o ABC paulista, berço do partido, onde Aécio levou a melhor. Enfim, Dilma venceu, mas o PT envelheceu e entrou em declínio.

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