Por bruno.dutra

Nem de longe ele passa a impressão de que está deixando o cargo. Ao contrário, defende a política econômica do governo Dilma Rousseff com unhas e dentes e afirma que tudo está correndo as mil maravilhas. Explica que o crescimento baixo no início do ano foi apenas um soluço passageiro provocado pela estiagem e pelas dificuldades internacionais. E garante que tudo está voltando ao normal.

Em suas projeções, o PIB do terceiro trimestre bateu em 0,5%, o que significa crescimento de 2% ao ano. Pode subir mais, até 3%, se a Europa e os EUA se recuperarem. Sustenta também que não há necessidade de ajuste fiscal, nem de correção dos preços administrados. Não seria otimismo excessivo? Mantega sorri e diz que estranho seria um ministro da Fazenda espalhando o pessimismo, dizendo que o País vai para o buraco.

No dia seguinte à reeleição, Mantega foi mais longe ainda ao afirmar que a vitória comprovou o acerto da atual política econômica. “Estou feliz com o resultado das eleições. Isso mostra que a população está aprovando a política econômica que nós estamos praticando”, comemorou. O objetivo final da política econômica, segundo ele, é permitir o aumento da renda e do emprego. E isso vem acontecendo desde 2008, diz. Mesmo assim, ele confirma que deixará o cargo no dia 1º de janeiro a pedido, por motivos particulares.

Foi para Brasília no primeiro governo Lula, quando assumiu o ministério do Planejamento e depois se tornou o mais longevo ministro da Fazenda, com oito anos e meio no posto. Agora, porém, quer se dedicar à família e pretende voltar à vida acadêmica na FGV/SP, da qual se licenciou. Devorador de livros, pretende escrever sobre sua experiência no poder central. Tem muita história para contar.

Com o adeus de Mantega, cresce a especulação sobre seu sucessor. A aposta mais recente é surpreendente. O presidente executivo do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco Cappi, teria sido indicado à presidente Dilma pelo ex-presidente Lula. Acredita-se que seu nome será capaz de apaziguar o mercado financeiro, que não escondeu a simpatia pela candidatura de Aécio Neves. De fato, a mera hipótese de Trabuco assumir a Fazenda foi bem recebida nas mesas de câmbio e nos pregões eletrônicos. A Bolsa se estabilizou e o dólar caiu. Também teve boa repercussão a promessa da presidente Dilma de “abrir o diálogo” com todos os segmentos da economia: “Quero dialogar com os setores empresariais, financeiros, do mercado, de fora do mercado, para discutir quais são os caminhos do País”,

Em relação a Trabuco, haveria um pequeno senão. Durante a campanha, a presença de Neca Setubal, herdeira do Banco Itaú, ao lado de Marina Silva foi fortemente criticada pelo PT. Por este prisma, pode soar contraditória a participação de um executivo do Bradesco no governo Dilma. Mas a política é assim mesmo. Vive de contradições. Pelo sim, pelo não, continuam no páreo o ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e o ex-secretário executivo do ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, que, na eleição de 2010, foi um dos principais assessores de Dilma.

De certo mesmo, vale a observação de Guido Mantega na entrevista ao Brasil Econômico do fim de semana: “Nós somos keynesianos”. Referia-se a ele e à presidente Dilma. Portanto, seja quem for o próximo ministro, terá de rezar pela cartilha do lorde John Maynard Keynes.

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