Por bruno.dutra

Desembargador em Teresina, meu avô, preocupado com a formação dos filhos mais jovens, decidiu trazê-los para o Rio de Janeiro, então a capital federal. Digo isto para deixar claro que não endosso qualquer tipo de preconceito contra os nordestinos. Ao contrário, desde garoto aprendi a amar tudo que vem da região acima do Rio São Francisco, o velho Chico, que nasce nas Gerais, corre pela Bahia e vai desaguar na fronteira de Sergipe e Alagoas.

Por força do meu destino, como disse Belchior, não resisto a sorvetes de graviola, mangaba e cupuaçu. E sempre peço a amigos que me tragam doce de buriti. Nas viagens, quando piso em solo do Nordeste sou tomado por energia positiva. Sempre tive a impressão de que ali a alma brasileira está mais presente.

Se há dúvidas a respeito da gente nordestina, que se leia a descrição de Euclides da Cunha no clássico “Os Sertões”. O sertanejo é antes de tudo um forte. Enfrenta a natureza hostil, resiste às intempéries e abre os caminhos com as próprias mãos. Outra boa fonte de leitura é a obra de Graciliano Ramos, com destaque para “Vidas Secas”, “São Bernardo” e “Memórias do Cárcere”. O povo do Nordeste é de ir à luta, mas também faz poesia e música de qualidade universal.

É impossível não se emocionar com “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, e não acompanhar as canções de Luiz Gonzaga, o Lua, criador de maravilhas como “Assum Preto” e “Asa Branca”. Quando olhei a terra ardendo/Qual a fogueira de São João/Eu perguntei a Deus do céu, ai/Por que tamanha judiação?

Não há Nordeste sem Brasil e nem Brasil sem Nordeste. E, se a maioria dos nordestinos votou em Dilma, teve motivo. O balanço das eleições é inegável e acachapante. Dilma obteve 70% dos votos válidos do Nordeste, contra apenas 47,3% no Sudeste. Lá, a presidente abriu uma vantagem de 12 milhões de votos, o que foi mais do que suficiente para cobrir a diferença que Aécio conseguiu em São Paulo, Paraná e Santa Catarina.

No Maranhão, a petista teve 78,7% dos votos válidos. No Piauí, ela atingiu 78,3%. A frente de quase 7 milhões de votos obtida por Aécio em São Paulo foi compensada pela vantagem de Dilma na Bahia (2,9 milhões), em Pernambuco (1,9 milhão) e no Ceará (2,4 milhões). A vitória do tucano no Paraná, por 1,3 milhão de votos, foi pulverizada pela diferença de 1,8 milhão que a presidente conquistou no Maranhão.

Dilma foi reeleita graças ao Nordeste. Ela sabe e agradeceu aos governadores aliados. Já os tucanos continuam a perguntar o que aconteceu. Por que Aécio não conseguiu melhor resultado sequer em Pernambuco, onde foi apoiado pela viúva de Eduardo Campos? Ainda se discutirá muito a divisão regional dos votos. Obviamente, falo das análises sérias e não das sandices que circulam na internet. Tudo indica que o Bolsa Família se transforma em votos para os governos petistas.

No Maranhão e no Piauí, por exemplo, metade da população é beneficiária do programa oficial. Mas também é verdade que preconceitos são rejeitados nas urnas. Os nordestinos exigem respeito. Arrogante, o coronel Moreira César disse que ia almoçar em Canudos. Foi abatido a tiros pelos jagunços de Antônio Conselheiro. Ele morreu sem entender o Nordeste.

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