Por bruno.dutra

Corria o ano de 1974 e o Brasil vivia uma fase dramática da ditadura militar, com os generais de linha dura resistindo aos tímidos passos de abertura dados pelo presidente Ernesto Geisel. Muita gente ainda estava sofrendo horrores nas prisões e os órgãos de repressão perseguiam e eliminavam os últimos grupos de esquerda. Exilados que tentavam voltar ao país eram assassinados com frieza. Nesse clima sombrio, tocou o telefone de minha mesa na redação da revista Veja, no antigo prédio da Mesbla, no Rio.

Era meu primo José Francisco, que, na época, vivia entre o Brasil e o Uruguai, onde estava exilado seu pai, o coronel Dagoberto Rodrigues. Muito nervoso, ele disse que foi procurado por agentes do DOI-Codi no sítio da família, em Petrópolis, mas, avisado pelo caseiro, conseguiu fugir, pulando o muro e pegando um ônibus na Rio-Juiz de Fora. Precisava de ajuda.

Pedi que Zé Francisco me encontrasse num café da Cinelândia dentro de meia hora, tempo necessário para buscar uma solução. Liguei para meu pai e, mesmo sob o risco de ter o telefone grampeado, ele me disse para esconder meu primo em meu apartamento em Santa Teresa. Depois de uma conversa rápida, fomos até lá, deixei-o com uma chave e expliquei que voltaria mais tarde. Fui ao escritório de meu pai.

Apesar de toda a tensão, ele já tinha chegado a uma decisão: apesar dos primeiros sinais de distensão do regime, Zé Francisco, que fazia a ponte com os exilados em Montevidéu, seria preso, torturado e provavelmente morto. Só havia uma saída: levá-lo imediatamente para fora do país. Naquela mesma noite, antes que a repressão descobrisse sua pista. Esta seria uma tarefa para meu irmão mais velho, um excelente motorista.

Parecia filme de ação e foi mesmo. Voltei à revista, cumpri a pauta do dia e fui para casa aguardar meu irmão, Varô, que pegaria Zé Francisco por volta de onze horas da noite. Mas meu primo me explicou que precisava de dinheiro para a fuga e pediu que o levasse à casa de Milton Nascimento, no Cosme Velho. Era arriscado, pois havia barreiras policiais na cidade. Com o coração a mil, fiquei dentro do carro enquanto Bituca, como os amigos chamam o cantor mineiro, providenciava os dólares necessários para a viagem. Felizes com a solidariedade de Milton, voltamos para Santa Teresa. Varô foi pontual e, na despedida, eu e Zé Francisco nos abraçamos, confiantes na perícia de meu irmão e no plano de meu pai, que emprestou seu Opala.

Passei a noite acordado e fui trabalhar, enquanto aguardava notícias sobre a fuga. No início da tarde, meu pai me ligou. Varô avisou que tudo deu certo. Os dois cruzaram São Paulo durante a madrugada, entraram pelo Paraná e foram até Foz do Iguaçú. Ao chegar lá, Zé Francisco pegou um barco e cruzou o rio. Da outra margem, já no Paraguai, acenou para meu irmão, que, só então, iniciou a viagem de volta ao Rio. Meu primo estava a salvo. Restava, porém, proteger seu filho e sua mulher. O melhor a fazer era embarcá-los imediatamente para Montevidéu.

Nada havia contra eles, pois a repressão ainda não sabia que Zé Francisco havia fugido. Eu e um colega de Veja, Benício Medeiros, levamos mãe e filho até o Galeão. Acompanhamos até o controle de passaporte e depois fomos para a sacada do aeroporto. Com alívio, vimos meus parentes na escada do avião. A missão estava cumprida.

Esse texto é para lembrar aos radicais da Avenida Paulista que os brasileiros sofreram muito para voltar à democracia e decidir suas divergências políticas nas urnas. Ditadura nunca mais!

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