Um bambolê é pouco

Se houver mudanças em relação ao vazamento, não se poderá falar de recuo. A divulgação de nomes de ministros pode ter sido mero balão de ensaio

Por O Dia

A história é de meados de janeiro de 2008, época em que Dilma Rousseff ocupava a chefia da Casa Civil do governo Lula. Numa tarde de segunda-feira, um enorme embrulho, com papel de loja infantil, foi entregue no quarto andar do Palácio do Planalto, onde se encontrava reunido o então líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves. Ao receber a encomenda, o experiente deputado pediu que um portador entregasse o pacote no gabinete de Dilma. E revelou do que se tratava: “É um bambolê. Para a ministra ganhar mais jogo de cintura”. Ele fez questão de explicar que a brincadeira não envolvia a negociação em torno de cargos no setor de energia, mas, sim, a flexibilidade necessária a quem pretendia ser candidata do PT à sucessão de Lula. Os tempos são outros. Henrique Eduardo Alves, hoje, é presidente da Câmara e Dilma acaba de conquistar mais quatro anos de mandato. Mas, diante das dificuldades para formar o novo ministério, o que não pode não faltar neste momento à presidente é jogo de cintura.

O simples vazamento de prováveis nomeações – mesmo sem caráter oficial – já provocou nervosismo. O exemplo mais clamoroso é o da indicação da senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) para o Ministério da Agricultura. Integrantes do Movimento Sem-Terra reagiram imediatamente e deram início a forte mobilização contra a presidente da Confederação Nacional da Agricultura. Na opinião do MST, Kátia é porta-voz dos interesses do agronegócio no Congresso. O Movimento Brasil pelas Florestas também organizou um abaixo-assinado na internet contra a nomeação da senadora. Adverte que “caso essa ação se confirme será entendida por nós como um sinal de rompimento definitivo do governo federal com o desenvolvimento sustentável”. A lista, ontem, já tinha mais 17 mil assinaturas, enquanto internautas lembravam que o Greenpeace em 2009 fez a entrega de uma faixa de Miss Desmatamento a Kátia Abreu, por ter relatado a MP 458 que regularizou terras na Amazônia Legal.

A própria cúpula do PMDB se mostrou descontente com a escolha. Deu a entender que a senadora não representa o partido, no qual ingressou em outubro do ano passado após deixar o PSD. Há quem diga que as reações vão cair no vazio porque Kátia seria parte da cota pessoal da presidente. E Dilma Rousseff não é de ceder a pressões. Na verdade, ela não gosta de ser pressionada. Esse raciocínio se aplicaria também ao caso de Joaquim Levy, diretor da Bradesco Asset Management e ex-secretário do Tesouro Nacional. Muita gente no PT não esconde a surpresa com a quase certa nomeação de Levy para o Ministério da Fazenda. Dizem que ele bateu cabeça com Guido Mantega, por causa de sua defesa ortodoxa do corte radical nos gastos públicos. As críticas ao futuro ministro não se resumem ao PT. Em seu blog, o ex-prefeito Cesar Maia conta que, certa vez, Levy, secretário da Fazenda do Estado do Rio de Janeiro, defendeu a entrega a UERJ à União para economizar recursos. O economista faria jus, portanto, ao apelido que lhe deram de Eduardo Mãos de Tesoura.

Há quem lembre, porém, que a presidente ainda não indicou qualquer nome. Só o fará na quinta-feira. Logo, se houver mudanças em relação ao vazamento, não se poderá falar de recuo. A divulgação prematura pode ter sido mero balão de ensaio. O jogo de cintura de Dilma Rousseff ainda não se iguala ao de Lula. Mas é bem maior do que em 2008, quando ela ganhou o bambolê.

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