A aposta em dias melhores

Os críticos da atual matriz de desenvolvimento e da contabilidade criativa estão felizes da vida com a mudança de rumo na economia

Por O Dia

Em sua longa gestão à frente do Ministério da Fazenda, Guido Mantega acostumou-se a usar o mesmo comentário ao rebater perguntas sobre o mau desempenho da economia: “Não adianta olhar a economia pelo espelho retrovisor. Importante é olhar para a frente”. Nos últimos dois anos, diante da profusão de estatísticas negativas, o ministro viu-se forçado a repetir esta imagem de forma cansativa. Ontem, por exemplo, foi um dia de olhar a economia do país pelo retrovisor.

Segundo o IBGE, a produção industrial ficou estagnada em outubro, registrando crescimento zero em relação a setembro, quando havia recuado 0,2%. Na comparação com outubro de 2013, houve queda de 3,6%, a oitava seguida. De janeiro a outubro, a indústria acumula queda de 3%. No período de doze meses, a produção caiu 2,6%, a mais forte desde setembro de 2012, quando o recuo foi de 2,9%. O ano, portanto, está perdido e o melhor a fazer é aguardar o segundo mandato de Dilma Rousseff.

Na opinião do gerente do IBGE, André Macedo, o resultado modesto se deve a uma combinação de demanda doméstica mais fraca com estoques elevados. “É claro que tem redução da demanda doméstica, mas tem uma produção estocada que pode estar dando conta de uma demanda mais intensa desta época do ano”. Pode ser. Mas não há motivos para esperar números positivos a curto e médio prazo. Tudo indica que o ajuste fiscal que está sendo elaborado pela dobradinha Nelson Barbosa/Joaquim Levy vai exigir tempo até a retomada do crescimento. No boletim Focus desta semana, a previsão dos analistas para o PIB de 2015 não passou de 0,77%, abaixo dos 0,8% da pesquisa anterior. Um dos fatores que pesam é o impacto das taxas de juros sobre o ânimo dos empresários. As principais instituições financeiras acreditam que o Copom, na reunião de hoje, vai elevar a taxa Selic para 11,75%. Com a alta de 0,5 ponto percentual, a diretoria do Banco Central, com Alexandre Tombini à frente, renovará seu recado de prioridade absoluta ao combate à inflação.

A ortodoxia na política fiscal e a taxa de juros em alta arrancam aplausos de quem cobrava o retorno aos fundamentos sólidos. Os críticos da atual matriz de desenvolvimento e da contabilidade criativa estão felizes da vida com a mudança de rumo que fica expressa na formação do novo ministério. Mas sabem que a redução dos gastos públicos e a rigidez monetária, num primeiro momento, manterá a economia desaquecida. Este será o preço a pagar para repor o trem nos trilhos. Porém, as medidas de austeridade também servirão para mostrar as agências de risco que o Brasil abandonou as práticas heterodoxas e retomará o caminho dos superávits primários. A nova equipe que assumirá o comando da economia a partir de janeiro tem carta branca de Dilma Rousseff para fazer o necessário para restaurar a confiança dos agentes do mercado aqui e no exterior.

A nomeação do senador Armando Monteiro Neto é mais um passo no sentido de mudar para melhor a expectativa do setor produtivo. O ex-presidente da CNI está cansado de saber o que seus pares esperam do governo. Sabe que não adianta atirar na alta das taxas de juros, mas sabe também que é possível “reduzir custos sistêmicos” para aumentar a competitividade da indústria. E vai se esforçar para convencer seus colegas na Esplanada dos Ministérios. Afinal, como diz Mantega, é preciso olhar para frente. E acreditar em dias melhores.

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