Até Janot está indignado

Os parlamentares não viram qualquer conflito de interesse em investigar na CPMI as empreiteiras que financiaram suas campanhas eleitorais

Por O Dia

A expressão mais ouvida nas redações hoje é de total perplexidade. “E a Petrobras, hein??”, perguntam-se os editores, sem esconder o espanto com os fatos. Ontem, não foi diferente. Caíram como uma bomba as declarações do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, sobre a rede de corrupção montada na estatal. Normalmente moderado, Janot, desta vez, bateu pesado. Segundo ele, o país “se vê convulsionado por um escândalo que, como um incêndio de largas proporções, consome a Petrobras e produz chagas que corroem a probidade administrativa e as riquezas da nação”. Após pedir mais rigor e transparência, o procurador cobrou do governo a troca dos diretores da Petrobras. “Esperam-se as reformulações cabíveis, inclusive, sem expiar ou imputar previamente culpa, a eventual substituição de sua diretoria, e trabalho colaborativo com o Ministério Público e demais órgãos de controle”.

Rodrigo Janot escolheu o lugar certo para mandar seu recado. Falou durante a Conferência Internacional de Combate à Corrupção, em Brasília, e atribuiu as irregularidades investigadas pela Polícia Federal às relações promíscuas entre executivos públicos e privados. “Isso não é culpa do Ministério Público, mas de maus dirigentes que se associam a maus empresários em odiosas atuações montadas para pilhar continuamente as riquezas nacionais”. Ele lamentou que o Brasil apareça em 69º lugar na lista de países mais corruptos e fez uma advertência que revela toda sua indignação: “Corruptos e corruptores precisam conhecer o cárcere e devolver ganhos espúrios que engordaram suas contas às custas da esqualidez do Tesouro Nacional e do bem-estar do povo.”

O discurso de Janot impressiona pela crueza e traz esperanças aos contribuintes que estão desorientados diante do noticiário. Por piores que sejam as denúncias que se abatem sobre a Petrobras, tudo indica que os autores dos desvios não vão ficar impunes. A Polícia Federal e o Ministério Público estão cumprindo seu papel e têm recebido amplo respaldo do Supremo Tribunal Federal. Há motivos para acreditar que os criminosos “vão conhecer o cárcere”. O que destoa, porém, é a atuação do Congresso, pelo menos na atual legislatura. Como diz o ditado popular, de onde menos se espera é que não sai nada mesmo. Ainda não foram revelados, no inteiro teor, os nomes dos políticos que se beneficiaram do propinoduto da Petrobrás. Mas, a esta altura, está claro que a lista é longa e deve atingir gente graúda da vida pública. Segundo a delação premiada de Paulo Roberto Costa, serão mais de 40 nomes.

Sabe-se, agora, que sete dos 16 integrantes da Comissão Parlamentar de Inquérito que apurou o escândalo da Petrobras receberam em suas campanhas financiamentos de empreiteiras. O senador Humberto Costa (PT-PE), por exemplo, foi brindado com R$ 1 milhão da Camargo Corrêa e R$ 500 mil da OAS. A senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), que se diz contra o financiamento privado de campanhas, também recebeu R$ 500 mil da Camargo Corrêa. Até o relator Marco Maia (PT-RS) contou com R$ 330 mil para cobrir as despesas com a eleição. Nenhum deles, obviamente, sentiu-se impedido de participar dos trabalhos da CPMI. Não viram qualquer conflito de interesse em investigar as empresas que custearam suas candidaturas. Se a CPMI não convocou executivos de empreiteiras para depor, deve ter sido por mera coincidência.

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