O sentimento de Dilma

Quem estava no centro do palco era a ex-guerrilheira da VAR-Palmares pranteando os moços e as moças que ficaram pelo caminho. São 434 mortos e desaparecidos

Por O Dia

Não foi a primeira vez que a presidente Dilma Rousseff chorou em público ao falar dos tempos dramáticos da ditadura militar. Há dois anos e meio, quando anunciou, no Palácio do Planalto, a instalação da Comissão Nacional da Verdade, ela ficou com a voz embargada após afirmar que os órfãos, enfim, conheceriam o destino de seus pais e as famílias teriam oportunidade de enterrar seus mortos. Tempos depois, num evento em homenagem ao médico Chael Charles Schreier, morto pelo Exército na Guerrilha do Araguaia, a presidente não conseguiu conter as lágrimas. Ex-presa política, Dilma foi vítima de tortura e já confessou que, nesses momentos, pensa nos companheiros e nas companheiras que morreram na luta armada. Jovens idealistas que não tiveram a sorte de ver a volta da democracia. Dilma Rousseff tem motivo de sobra para se emocionar. Além de sobreviver, tornou-se a primeira mulher presidente do Brasil.

Ontem, ao receber o relatório final da CNV, a presidente voltou a se emocionar. “A verdade significa acima de tudo a oportunidade de fazer o encontro com nós mesmos, com a nossa história, e o nosso povo com a sua história”, disse. E fez questão de se referir novamente ao sentimento de perda: “A verdade liberta daquilo que permaneceu oculto, de lugares que nós não sabemos onde foram depositados os corpos de muitas pessoas. Mas faz com que agora tudo possa ser dito, explicado e sabido”. Foi neste ponto do discurso que Dilma fez um enorme esforço para não chorar. Com lágrimas nos olhos, contorceu a boca e foi aplaudida de pé pelos presentes. Quem estava no centro do palco era a ex-guerrilheira da VAR-Palmares pranteando os moços e as moças que ficaram pelo caminho. São 434 mortos e desaparecidos. Alguns corpos jamais serão encontrados. Foram jogados ao mar.

A Comissão Nacional da Verdade seguiu à risca seus objetivos. Seguiu o modelo da Comissão de Verdade e Reconciliação da África do Sul, criada para apurar os crimes cometidos durante o regime racista do apartheid. A preocupação maior de Nelson Mandela era reconstituir os fatos. Ouvir as versões de oprimidos e opressores para recontar em detalhes os crimes, a violência e o desrespeito aos direitos humanos. As audiências eram abertas ao público e os testemunhos dos algozes deixaram marcas profundas. Mas objetivo não era fazer justiça, mas fazer história. No Brasil, fez-se opção pelo mesmo caminho. A prioridade foi apurar minuciosamente o que aconteceu durante a ditadura militar. A CNV teve poderes para convocar os envolvidos na tortura, mas sem a prerrogativa de aplicar sanções penais. Sua missão não era esta.

Mas Cecília Coimbra, fundadora do grupo Tortura Nunca Mais, não ficou feliz. Criticou especialmente as referências da CNV a violações dos direitos humanos, quando, em sua opinião, deveria ter denunciado a tortura sistemática por ordem do Estado. “Me sinto muito frustrada, revoltada, indignada”, disse. Ela também defende a revisão da Lei de Anistia para que os torturadores sejam punidos. A própria Comissão pede a revogação parcial. Mas dificilmente o Supremo Tribunal Federal voltará atrás em decisão já tomada a favor da anistia geral e irrestrita. Dilma Rousseff, pelo visto, está satisfeita e não vai brigar pela revisão da Lei. “Valorizamos pactos políticos que nos levaram à democracia”, garantiu. Afinal, a democracia permitiu o reencontro com a história.


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