A dor e o luto de Malala

O terrorismo talibã é assim mesmo. Pertence às trevas e se especializou em provocar dor na população do Paquistão e do Afeganistão

Por O Dia

Na semana passada, logo depois da entrega do Prêmio Nobel da Paz de 2014 à paquistanesa Malala Yousafzai e ao indiano Kailash Satyarthi, recebi mensagem de um leitor com pesadas críticas às escolhas mais recentes do comitê de Oslo responsável pela importante premiação. Para ele, há um viés ideológico na seleção de candidatos. Seria muito mais significativo, por exemplo, entregar o Nobel ao americano Edward Snowden, que denunciou os abusos cometidos pela National Security Agency (NSA) dos Estados Unidos. “Agora, em 2014, chegou a vez da paquistanesa Malala Yousafzai receber a honraria, deixando para trás, escandalosamente, pacifistas da estatura, por exemplo, do papa Francisco e de Edward Snowden !”, lamentou o internauta. E foi ainda mais longe no seu radicalismo: “ A jovem e tola Malala está, na melhor das hipóteses, totalmente equivocada no referente à verdadeira origem dos maiores conflitos mundiais, e sendo usada, consequentemente, como mera garota propaganda do capitalismo e dos EUA”.

Não preciso explicar a quem acompanha esta coluna que discordo profundamente da avaliação obscurantista do leitor. Tenho grande admiração por Malala, que quase pagou com a vida pela ousadia de defender que as meninas do Paquistão — e de outras nações que enfrentam o radicalismo islâmico — tenham acesso à educação. Ela levou um tiro na cabeça e sobreviveu por milagre à fúria dos talibãs. Mas não recuou em sua luta por um direito que é elementar aos olhos do Ocidente. O indiano Kailash, com quem ela dividiu o Nobel, também se dedica há anos a uma campanha solitária contra a exploração do trabalho infantil na Índia. Os temas premiados talvez pareçam distantes da preocupação dos militantes políticos que vivem nos países em desenvolvimento da América do Sul. Aqui, parte da esquerda se apega a uma bandeira monocórdia: o antiamericanismo. O resto, pelo enfoque distorcido, não tem qualquer importância. Explica-se assim o ataque gratuito ao Nobel de Malala.

Ontem, por sinal, foi um dia de luto para a corajosa moça de 17 anos. No que está sendo apontado como a ação mais sangrenta dos últimos anos no Paquistão, um comando talibã, fortemente armado, invadiu a Escola Pública do Exército, em Peshawar, principal cidade do Noroeste do país. O cerco durou mais de oito horas e terminou com 141 vítimas: 132 alunos e nove funcionários da escola, executados friamente. Sete extremistas foram mortos e vários soldados das forças especiais ficaram feridos. O atentado foi reivindicado pelo Movimento dos Talibãs do Paquistão, principal grupo islamita do país. Segundo um porta-voz do grupo, foi uma vingança contra o governo pela morte de centenas de extremistas em ofensiva militar recente na região Noroeste. “Queremos que eles sintam dor”, afirmou o talibã.

O terrorismo talibã é assim mesmo. Pertence às trevas e especializou-se em provocar dor na população do Paquistão e do Afeganistão. Ataca sem dó nem piedade, em nome de um fanatismo religioso ensandecido. Mas não intimida Malala. “Estou com o coração partido por este terrorismo sem sentido e a sangue frio em Peshawar. Choro por estas crianças, meus irmãos e irmãs, mas os talibãs não nos derrotarão nunca”, reagiu ela, ao comentar a tragédia. Será que alguém ainda vai se atrever a criticar a mais jovem ganhadora de um Nobel?

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