O exemplo de Kandinsky

Amante das artes plásticas, a presidente Dilma deveria pensar em aumentar os investimentos nos museus públicos

Por O Dia

A presidente Dilma Rousseff é apaixonada por pintura. Sempre que pode, mesmo nas viagens ao exterior, encontra um espaço na agenda para visitar museus e exposições. Em Nova York, seus seguranças já sabem que ela costuma caminhar do hotel até o MoMA (Museum of Modern Art) para olhar as novidades e depois de relaxar no agradável jardim da cafeteria. Em Paris, seu acervo preferido não é o do Louvre. Faz questão de indicar o museu privado Jacquemart-André, localizado no Boulevard Hausmann, no 8º arrondissement. A coleção não é grande, mas inclui telas da francesa Élizabeth Vigée-Le Brun (1755-1842), apontada como a mais famosa pintora do século XVIII. Dilma gosta muito da obra da francesa, especialmente dos retratos que ela fez da rainha Maria Antonieta. A presidente não está sozinha em sua preferência: um autorretrato de Vigée-Le Brun é destaque na National Gallery, em Londres.

Com uma chefe de Estado que ama as artes plásticas, era de se esperar que o Brasil desse mais atenção aos museus públicos e à manutenção de seus valiosos acervos. Mas o que se vê pelo país não fica à altura da cultura e do interesse de Dilma Rousseff. Há duas semanas, em seu artigo dominical, o jornalista Elio Gaspari lamentou o estado de abandono do Museu Nacional, em São Cristovão, no Rio, e do Museu do Ipiranga, em São Paulo.O Museu Paulista está fechado ao público desde agosto de 2013 e só deverá ser reaberto em 2022, para as comemorações do bicentenário da Independência. Construído no século 19, o prédio passa por revisão de sua estrutura. As obras de restauro da fachada e do interior aguardam licitação. Tão cedo, portanto, não será possível ver o grandioso quadro “O Grito do Ipiranga”, de Pedro Américo. 

No Rio, o fechamento no dia 12 janeiro do Museu Nacional, onde viveu a família imperial, deveu-se a motivo mais prosaico: falta de recursos para pagar os serviços terceirizados. As empresas não receberam pelos meses de novembro e dezembro. O governo federal simplesmente não havia feito os repasses. Na semana passada, o Ministério da Educação finalmente transferiu para a UFRJ, responsável pelo museu, R$ 8 milhões para a quitação dos contratos de limpeza e vigilância da universidade. O Museu Nacional, que recebe mais de 5 mil visitantes nos fins de semana de férias, pôde ser reaberto na última sexta-feira. Melhor assim. Durante a Copa do Mundo, o Museu Nacional de Belas Artes, no centro do Rio, ficou fechado em razão de greve dos funcionários. Por mais justa que tenha sido a paralisação, foi uma tristeza para os turistas que não puderam conhecer a arte brasileira.

Quem tem condições de visitar as principais capitais do mundo sabe da importância que os países mais desenvolvidos dão ao patrimônio artístico e cultural. E se emociona sempre que vê grupos de crianças com seus professores a admirar as obras-primas de grandes mestres. Neste sentido, merece aplausos o investimento que o Banco do Brasil tem feito para montar exposições de peso. Agora mesmo o CCBB está abrindo no Rio uma extraordinária mostra do pintor russo Wassily Kandinsky, com obras que vão até 1920, quando ele deixou seu país de origem. Se não viu Kandinsky no CCBB de Brasília, a presidente certamente vai encontrar tempo para vê-lo no Rio. E poderia aproveitar a visita para pensar no que fazer para aumentar os investimentos nos museus públicos.

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