Por diana.dantas

Em momentos de incerteza, não há nada como uma ata do Comitê de Política Monetária para dar um norte aos analistas financeiros. A visão da diretoria do Banco Central sobre os rumos da economia funciona como ponto de referência. É como nos áureos tempos do Partido Comunista Brasileiro. Quando a cúpula do Partidão se manifestava, dizia-se que estava definida a linha justa sobre determinado tema. Só então as correntes políticas de esquerda se posicionavam, umas contra e outras a favor da orientação de Luiz Carlos Prestes e seus companheiros. As atas do Copom são recebidas da mesma forma pelo mercado. Apontam um caminho para a economia, concorde-se ou não com ele. Mas, a bem do Banco Central, deve-se reconhecer que suas análises de conjuntura que dão respaldo às decisões sobre a taxa básica de juros têm sido bastante realistas. Se comparadas à leitura mais cautelosa da Fazenda, são quase hiper-realistas.

A ata da 188ª reunião, que elevou a Selic de 11,75% para 12,25%, é um bom exemplo da visão crua do Copom. Ao avaliar as tendências da inflação, os executivos do BC advertem que o quadro se agravou. Na linguagem rebuscada das autoridades monetárias, “os choques identificados, e seus impactos, foram reavaliados de acordo com o novo conjunto de informações disponível”. A projeção de alta dos preços administrados subiu para 9,3% este ano, quando na reunião de dezembro era de apenas 6,0%. Entre outros fatores, o Copom inclui em seus cálculos a hipótese de elevação de 8% no preço da gasolina, em grande parte, reflexo de incidência da Cide e da PIS/COFINS; de 3,0% no preço do gás de bujão; de 0,6% nas tarifas de telefonia fixa; e de 27,6% nos preços da energia elétrica, devido ao repasse às tarifas do custo de operações de financiamento da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE).

Como consequência da política de reajuste tarifário, mudaram as previsões sobre a taxa de inflação. O Copom informa que, no cenário que se baseia em dados coletados com analistas de instituições financeiras, a projeção para a inflação de 2015 “também se elevou em relação ao valor considerado na reunião de dezembro e permanece acima da meta”. Diante deste quadro, no entender do BC, justifica-se plenamente a elevação da Selic. “ O Copom reafirma sua visão de que cabe especificamente à política monetária manter-se especialmente vigilante, para garantir que pressões detectadas em horizontes mais curtos não se propaguem para horizontes mais longos”, afirma a ata.

ão bastasse a resignação com a tendência menos favorável da inflação (decorrência do processos de ajustes de preços relativos na economia), o BC admite, sem meios tons, que “o ritmo de expansão da atividade doméstica este ano será inferior ao potencial”. O que só vai mudar quando for restaurada a confiança de firmas e famílias. Neste sentido, a equipe de Alexandre Tombini ressalta a contribuição do pacote fiscal anunciado pela novos titulares da Fazenda e do Planejamento. “Especificamente sobre o combate à inflação, o Comitê destaca que a literatura e as melhores práticas internacionais recomendam um desenho de política fiscal consistente e sustentável, de modo a permitir que as ações de política monetária sejam plenamente transmitidas aos preços”. Em outras palavras, a política de juros deixou de ser arma isolada. O BC já não se sente enxugando gelo.



Você pode gostar