Por diana.dantas
O governo e o PT ficaram impressionados com o poder de articulação do deputado Eduardo Cunha, novo presidente da Câmara. A ficha só caiu na manhã de domingo, quando perceberam que algo saíra errado nas negociações realizadas pelos ministros Aloizio Mercadante e Pepe Vargas. Concluíram que eram mínimas as chances da candidatura do petista Arlindo Chinaglia, mas já era tarde. A vitória de Cunha veio no primeiro turno, para decepção da presidente Dilma Rousseff e de seus principais assessores. Não houve surpresa, porém, para quem conhece habilidade de Cunha em se movimentar nos bastidores. Por muitos anos, ele se esmerou em manobrar longe do centro do palco. Com muita discrição e cautela, transitava entre o baixo clero da Câmara, como uma espécie de eminência parda do PMDB. Agora veio a colheita. Por sinal, generosa.

Refratário a jornalistas e à luz dos holofotes, Cunha não costuma dar entrevistas e move dezenas de ações contra meios de comunicação e repórteres por alegados danos morais. Isso não significa que o deputado não mantenha contatos com a grande imprensa ou que não saiba usar informações contra seus adversários políticos. Ao contrário, ele não só conhece o poder da mídia, como sabe mexer os pauzinhos para publicar notícias de seu interesse. Da mesma forma que atua na Câmara, Cunha faz a ponte com as redações também sem fazer alarde. Desde que ingressou na política como presidente da Telerj no início dos anos 90, ele mostrou-se mestre em dar nó em fumaça. Aparece pouco, mas joga pesado para ocupar espaços.
Lembro-me bem do dia em que recebi uma ligação do experiente jornalista Tão Gomes Pinto, diretor da revista "IstoÉ', que me pediu que procurasse Eduardo Cunha, então com um escritório de consultoria na torre do Rio Sul, com vista para o Pão de Açúcar. Corria 1994 e o político tinha uma importante denúncia em mãos. Cheguei lá e fui prontamente recebido. Cunha abriu um envelope pardo do qual retirou folhas xerocadas e explicou-me seu conteúdo. Tratava-se de algumas emendas parlamentares encaminhadas pelo gabinete do senador Fernando Henrique Cardoso (já candidato à Presidência da República). Todas referiam-se a obras públicas de interesse de determinadas empreiteiras. Segundo Cunha, os documentos poderiam comprometer a candidatura de FHC. Fui enviado a Brasília para prosseguir na apuração. Na época, só deputados tinham acesso ao Siafi, o sistema de acesso às emendas. Procurei um deles, que confirmou a autenticidade, mas explicou-me que fazia parte da rotina dos gabinetes na Câmara e no Senado receber emendas ao Orçamento envolvendo obras públicas. Muitas vezes as emendas eram encaminhadas na última hora e sequer chegavam ao conhecimento dos parlamentares. Logo, não havia nada de anormal. A documentação foi parar na lata de lixo e Fernando Henrique tornou-se presidente.

Em outra ocasião, Cunha, após muita insistência, recebeu-me para complementar informações sobre seu perfil. Foi educado, mas advertiu que a conversa era totalmente off-the-records. Não queria ver nenhuma informação em sua boca. Fui obrigado a aceitar a condição. Agora, as regras do jogo certamente vão ser diferentes. Eduardo Cunha, desde domingo, ocupa o segundo posto na linha de sucessão da presidente Dilma. Não deixará de agir nos bastidores, mas ficará exposto ao sol e à chuva. Melhor assim.
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