Mandinga de tucano

Todo dia é dia de assombração. Quando não é o escândalo da Petrobras, é o PMDB da Câmara pondo pedras no caminho do Planalto

Por O Dia

Muita gente que não gosta de folia aproveita os dias de Carnaval para descansar. Alguns são mais radicais e participam de retiros espirituais de sua respectivas religiões. A agenda da presidente Dilma Rousseff para o feriado ainda não foi divulgada pelos assessores, mas no ano passado,ela preferiu se isolar com a família na praia de Inema, na Base Naval de Aratu, em Salvador. Talvez ela faça a mesma escolha este ano. Seria uma decisão bastante acertada. Desde a posse festiva em 1º de janeiro, Dilma tem enfrentado uma safra de problemas que mais parecem mandinga de tucano. Por mais que a presidente se esforce para demonstrar otimismo em sua raras aparições em público, poucas vezes se viu um início de mandato tão atribulado.

Todo dia é dia de assombração. Quando não é o escândalo da Petrobras, é o PMDB da Câmara pondo pedras no caminho do Planalto. Na sexta-feira, após nomear a nova diretoria da estatal, a presidente, apesar de reações negativas ao nome de Aldemir Bendine, certamente pensou que passaria um fim de semana tranquilo. Mas a paz durou pouco. No sábado à noite, começaram a pipocar na TV os números da nova pesquisa do Datafolha sobre a avaliação do governo Dilma, todos muito negativos. A popularidade da presidente levou um tombo, atingindo a pior de seu governo, abaixo até mesmo da marca registrada durante as manifestações de junho de 2013. Caiu de 42% para 23% do total o grupo de entrevistados que considera a atual gestão boa e ótima. Aqueles que dão conceito ruim e péssimo subiram de 24% em dezembro para 44% em fevereiro. Para 77% Dilma tinha conhecimento da corrupção na Petrobras.

Pode ser um julgamento apressado e injusto, considerando-se que o novo mandato ainda está engatinhando. Mas o que fica é a primeira impressão. E a opinião pública costuma ser implacável. Mais do que os desvios da Petrobras, que, por sinal, já eram conhecidos durante a campanha eleitoral, estão pesando os maus resultados da economia. Segundo a pesquisa Datafolha, realizada no início de fevereiro, 55% dos entrevistados acreditam que a situação econômica vai piorar (trata-se do maior percentual desde 1997). Ontem a pesquisa Focus, do Banco Central com as principais instituições financeiras, também se mostrou pessimista, ao rebaixar a previsão de crescimento do PIB este ano para 0%. A projeção para a inflação subiu para 7,15%. Como reflexo do mau humor generalizado, o dólar operou em alta pelo quarto pregão seguido, indo a R$ 2,78. Teriam influído a crise na Grécia e a desaceleração da economia da China. Ou seja, nestas horas de dificuldades tudo pesa contra.

Há quem diga que o problema do governo Dilma é de comunicação. A presidente não estaria conseguindo explicar as mudanças na economia e a necessidade de ajuste fiscal. A equipe econômica não teria sido convincente ao anunciar a revisão na pensão das viúvas, a rigidez maior nas regras do seguro desemprego e o aumento de impostos. Se fosse uma escola de samba, poderia se concluir que o samba do governo atravessou. Quando isto acontece na avenida, só existe uma solução: a escola para de cantar para reencontrar a harmonia. Em certa medida, a parada obrigatória do Carnaval pode fazer bem à presidente Dilma. Mas, pelo sim, pelo não, também vale bater três vezes na madeira e cantar um samba campeão do Salgueiro: “In credo in cruz, ê ê, vige Maria”.

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