Não deixem o samba morrer

Desenraizadas das tradições, as escolas correm o risco de ficar artificiais e perder a força. Está na hora de valorizar o samba e dar a volta por cima

Por O Dia

É Carnaval. Não é hora de falar sobre o escândalo da Petrobras ou a crise da base aliada. Talvez um rápido comentário sobre o encontro de Lula com Dilma Rousseff, em São Paulo na tarde de quinta-feira. De resto, o Rei Momo mandou vadiar. E no Rio de hoje isso é sinônimo de bloco na rua. Desde a fundação, há 31 anos, do Barbas em Botafogo e do Simpatia é Quase Amor em Ipanema, os blocos se multiplicaram e tomaram conta da Zona Sul e da Zona Norte. Alguns desfilam pelos bairros e têm camiseta e samba oficial. Outros preferem o modelo “concentra mas não sai” em torno de carros de som, com fantasias improvisadas. Nesse estilo, um dos mais animados é o Escangalha, da garotada da Gávea e do Jardim Botânico, que se reúne no sábado na Praça Santos Dumont. Mas o maior desfile continua sendo o do bloco amarelo-e-lilás no domingo com seu famoso grito de guerra: “Alô, burguesia de Ipanema! Olha o Simpatia aí, gente!”.

Com o crescimento dos blocos de classe média (diferente dos tradicionais Bola Preta e Cacique de Ramos), está ocorrendo um fenômeno ao mesmo tempo curioso e preocupante. Até a criação do Sambódromo no anos 80, as escolas de samba eram o principal assunto da Cidade Maravilhosa de janeiro a fevereiro. Os ensaios ficavam superlotados e em todo canto surgiam conversas sobre a qualidade dos sambas-enredo. As discussões eram acaloradas. Para os mais apaixonados, a Mangueira era sempre favorita. Havia certa afinidade entre ser rubro-negro e torcer pela verde-e-rosa. Mas a Portela mantinha o peso de supercampeã e o Salgueiro tentava honrar o lema de “nem melhor, nem pior, apenas diferente”. Império Serrano, também muito popular, fechava o grupo tradicional. Joãosinho Trinta já fazia maravilhas na Beija-Flor de Nilópolis, enquanto Mocidade, Imperatriz e a Vila também se firmavam entre as grandes. As escolas de samba dominavam a cena de forma absoluta.

Vieram novos tempos. Fernando Pamplona tornou-se comentarista, Joãosinho se aposentou e as escolas passaram a ser notícia por motivos que nada têm a ver com o samba. Atualmente, ninguém mais fala da ala de compositores ou dos mestres de bateria. As atenções vão para as madrinhas de bateria e os efeitos especiais levados em segredo para a Avenida. Um nome ganhou destaque nos últimos anos: o do carnavalesco Paulo Barros, que deu três campeonatos à Unidos da Tijuca e agora é responsável pela Mocidade. Nada ou quase nada se fala sobre os sambas – que parecem mero detalhe, um quesito a mais. O genial Martinho da Vila não está feliz com o que vê e ouve. Autor de sambas-enredos antológicos (“Dindinha lua desça do céu e vem sambar na rua”, p. ex.), ele adverte que ninguém mais conhece as letras. Martinho lamenta e culpa a programação das rádios e das têves. A verdade é que caiu o interesse pelas escolas, principalmente entre os jovens. Se as arquibancadas continuam cheias, deve-se mais à presença dos turistas, brasileiros e estrangeiros.

O desfile na Sapucaí é belíssimo e luxuoso. Uma maravilha. Mas parece que as escolas não fazem mais parte da vida da cidade. Elas repercutem nos limites de cada comunidade e não vão além disso. Não é um bom sintoma. Caso se tornem apenas um show de alto nível, porém desenraizadas das tradições, as escolas correm o risco de ficar artificiais e perder a força. Está na hora de revalorizar o samba e dar a volta por cima.

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