Por diana.dantas

Em evento promovido pelo vice-presidente Michel Temer, a cúpula do PMDB jantou ontem com o ministro da Fazenda, Joaquim Levy. O objetivo foi deixar claro o apoio às medidas de ajuste fiscal. Ao contrário do PT, o PMDB, com Temer à frente, não tem dúvidas sobre a necessidade de apertar o cinto para repor a economia nos eixos, mesmo a custa de medidas impopulares. Levy, que tem feito um périplo nacional e internacional para justificar seu mini-pacote, deve ter saído bastante satisfeito da casa de Temer. Até agora, tudo indica que o ministro vai enfrentar fogo amigo nas votações do Congresso. Pressionado pelas centrais sindicais e insatisfeito com os cargos que lhe coube na administração, o PT mostra-se avesso a mudanças nos mecanismos sociais, principalmente no seguro-desemprego. Neste clima, o compromisso do PMDB cai do céu.

Apesar dos esforços do Palácio do Planalto, dificilmente haverá iniciativa parecida do lado do PT. Mas há certa coerência na rebeldia dos petistas (inclusive de alguns graúdos, como a senadora Gleisi Hoffmann). Dizer que os quadros do partido da presidente Dilma reagem porque as medidas de cunho ortodoxo contrariam as bandeiras do PT é meia verdade. Nos último anos, não faltaram momentos em que o PT teve de engolir pílulas amargas. O que dizer, por exemplo, da manutenção do fator previdenciário no governo Lula? Não se trata de fidelidade programática, mas, sim, de profundo incômodo dos petistas com a guinada radical na política econômica. Quem defendia com unhas e dentes o desenvolvimentismo de Guido Mantega não se sente confortável ao ser convocado para dar respaldo à austeridade de Joaquim Levy.

Em outros tempos, graças ao poder de persuasão de Lula, o PT já teria se dobrado ao pragmatismo. Mas Dilma, como se sabe, não possui o mesmo jogo de cintura. E também é certo que o ministro da Fazenda não está colaborando para quebrar a resistência dos petistas. Ao contrário, quando Levy fala, provoca um deus-nos-acuda nas hostes da legenda oficial. Em suas análises sobre a economia brasileira, o ministro não se intimida em apontar erros cometidos no primeiro mandato de Dilma. Ontem, em encontro com empresários na Câmara de Comércio Brasil-França em São Paulo, depois de afirmar que houve uma “escorregadinha” nas contas públicas, Levy disse que, agora, existe comprometimento com a responsabilidade fiscal. Ele confirmou que o BNDES não terá o mesmo fôlego financeiro dos últimos anos, quando se alimentou de repasses do Tesouro. “Parte do aumento da dívida pública, quase R$ 500 bilhões, se deve ao BNDES, cuja atuação foi importante, mas teremos que ter alternativa para isso”, explicou.

Levy dá um escorregão ao não considerar que a “escorregadinha” no controle dos gastos públicos e o papel relevante do BNDES foram sancionados pela presidente Dilma. Além disso, Mantega não agiu sozinho. Faziam parte da equipe econômica Miriam Belchior, então ministra do Planejamento, e Luciano Coutinho, presidente do BNDES. Belchior assumiu, ontem, a presidência da Caixa, e Luciano acaba de ser mantido à frente do BNDES. Quando critica a condução da política econômica , Joaquim Levy não atinge apenas Guido Mantega. Atira em membros do atual governo, que contaram com o apoio do PT. Talvez seja mais prudente o ministro deixar de remoer o passado e olhar para frente. Até porque não basta o apoio isolado do PMDB.

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