Por diana.dantas

Que Dilma Rousseff chegou à Presidência pelas mão de Lula não é novidade. Mas não custa relembrar a história. O candidato natural à sucessão do carismático líder do PT, ao fim de seus dois mandatos, seria José Dirceu, o todo-poderoso ministro da Casa Civil no início do ciclo petista. Mas Dirceu não resistiu ao mensalão. Em 2005, perdeu o cargo, teve cassado o mandato de deputado e depois foi cumprir prisão. A segunda opção era o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, forçado a deixar o posto em 2006 sob a acusação de ter pedido à Caixa a quebra de sigilo bancário do caseiro Francenildo, que o acusara de frequentar uma mansão de maus costumes.

Sem poder contar com os dois companheiros, Lula, no início de 2010, decidiu-se por Dilma, que chefiava a Casa Civil. “Eu escolhi Dilma porque era a melhor pessoa para cuidar do país. Em 2010, o governo federal estava com uma aprovação tão extraordinária que eu elegeria qualquer um que eu indicasse”, contou o ex-presidente, no ano passado.

Dilma fez história ao se tornar a primeira mulher presidente do Brasil e não esconde que é grata pela escolha. Mantém-se fiel ao amigo e não abre mão da experiência de Lula ao tomar suas decisões. Até aí, tudo bem. Na verdade, os perfis de Dilma e Lula se complementam. Os dois pertencem à mesma geração: Lula nasceu em outubro de 1945 e Dilma, em dezembro de 1947. Mas a presidente tornou-se militante bem antes do ex-presidente. Ela entrou para a luta armada contra a ditadura em 1969 e foi presa em 1970, época em que Lula ainda não mostrava grande interesse pela política. Seu irmão mais velho, Chico, sim, era membro do PCB e, aos poucos, conseguiu atraí-lo para a luta sindical. Enquanto Dilma reiniciava sua trajetória em Porto Alegre, Lula ganhava destaque à frente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. Comandou greves históricas, que ajudaram a desgastar o regime e chegou a ser preso em 1979.

Portanto, ambos abriram caminho para a vida pública nos anos de chumbo. Se esse é um traço comum, há enorme diferença na origem social e na formação escolar. Dilma pertence a uma família da alta classe média mineira (seu pai era empresário do ramo imobiliário) e estudou nos melhores colégios de Belo Horizonte. É formada em economia e deixou de completar o mestrado na Universidade de Campinas por pura falta de tempo. De família pobre, Lula trabalhou desde cedo. Estudou pouco e só se diplomou no Senai por pressão da mãe, dona Lindu. Também não gosta de ler, mas tem enorme facilidade para acumular conhecimento. É doutor pela universidade da vida. Se a principal marca de Dilma Rousseff é a competência técnica, Lula tem uma intuição política que já se transformou em lenda. Superou até mesmo à de Leonel Brizola. E, por isso mesmo, sua contribuição é sempre bem-vinda.

Às vezes, porém, o ex-presidente exagera e se refere à presidente Dilma como uma discípula ingênua e insegura. Foi o que Lula fez na noite de terça-feira, na ABI, quando afirmou que o governo está paralisado. “Nossa querida Dilma tem que levantar a cabeça, dizer 'eu ganhei as eleições' e governar o país”, advertiu. Seu conselho soa estranho. Parece que Dilma Rousseff está fragilizada e não sabe enfrentar as adversidades da hora. É como se a presidente não se movesse pelas próprias pernas e necessitasse de amparo paternal. Assim Lula mais atrapalha do que ajuda.

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