Por bruno.dutra

Neste dias de baixo astral e de decepção com a política e a economia, foi emocionante assistir ao jogo do tenista brasileiro João Olavo Souza contra o argentino Leonardo Mayer pela Copa Davis, na tarde de domingo.

O nosso Feijão, assim chamado desde moleque pela pele morena e por gostar da comida, mostrou uma resistência épica. Numa quadra de saibro improvisada no Complexo Tecnopolis, em Buenos Aires, tomada de torcedores argentinos, Feijão conseguiu evitar dezenas de match points do adversário, que chegou ao limite da exaustão para conseguir a vitória no quinto set, por 15 games a 13.

Depois de 6 horas e 42 minutos, os dois realizaram a partida de simples mais longa da história da Copa Davis (o principal torneio entre nações). Deixaram para trás o recorde anterior de 6 horas e 22 minutos, da disputa entre o americano John McEnroe e o sueco Mats Wilander, em 1982.

Feijão saiu da quadra sob aplausos dos argentinos, que reconheceram sua valentia. Leonardo Mayer também brilhou debaixo do forte calor, mas jogava em casa e era o franco favorito. Era de se esperar que o 29º tenista do mundo vencesse o 75º. Mas teve que enfrentar o heroísmo do brasileiro. Quem acompanha tênis poucas vezes viu algo parecido. Quando tudo parecia perdido, com vantagem para seu adversário, Feijão buscava as últimas forças, conquistava os pontos, adiava a derrota e calava a boca dos argentinos.

Depois do jogo, bastante emocionado, o valoroso tenista de Mogi das Cruzes comentou seu esforço: “Dei 300% de mim, lutei até o último ponto. Ele também deu 300% dele. Alguém tinha que ganhar e foi para o lado dele. Só pensei em jogar ponto a ponto e jamais desistir”. Feijão não desistiu e teve o esforço premiado. Agora, aos 26 anos, o paulista é o 72º colocado no ranking mundial de simples.

Para quem não entende nada de tênis, vale explicar que a Copa Davis não é um torneio de premiação milionária. Os tenistas jogam pela honra de seu país. Suam a camisa pela bandeira nacional. Portanto, Feijão não resistiu a Mayer por mais de 6 horas para abocanhar mais um punhado de dólares. Jogou o que jogou em nome do Brasil. Não importa se, no final, perdeu para o argentino.

Com alma de vencedor, mostrou uma raça e uma dedicação que tem feito muita falta nestes tempos de crise econômica e decadência política. Nos anos de chumbo, numa de suas belas músicas, Chico Buarque de Holanda recomendou que todos se mirassem na coragem das mulheres de Atenas, que sofreram pelos maridos, pelo poder e pela força de Atenas. Depois do jogo de domingo, seria justo adaptar a famosa letra: “Senhores e senhoras, mirem-se no exemplo do Feijão”.

Imaginem se os políticos e os governantes que têm o destino do país em suas mãos se dedicassem aos problemas nacionais como fez o valente Feijão na Copa Davis. Imaginem se eles dedicassem ao exercício de seus mandatos 300% da energia. Imaginem se simplesmente honrassem os votos que receberam. O Brasil certamente não estaria vivendo estes dias de angústia e incerteza. Em seu histórico discurso de posse em 1960, o presidente John Kennedy cunhou uma frase célebre: “Não pergunte o que seu país pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer por seu país”. O domingo 8 de março entrou para a história do esporte nacional: na batalha épica de Buenos Aires, o tenista João Olavo Souza, o Feijão, fez o que pôde pelo Brasil.

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