Por monica.lima

O rumor transformou-se em notícia. Na terça-feira, em reunião no Palácio da Alvorada para discutir a crise na base aliada e o mau momento do governo, a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula teriam se desentendido e trocado palavras ásperas. Conta-se que ministros que aguardavam para jantar ficaram espantados com o tom de voz dos dois amigos. A certa altura, Lula pediu a cabeça de Pepe Vargas, ministro das Relações Institucionais: “Esse Pepe não serve para nada”. O líder petista também defendeu o afastamento do ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, das funções de articulação política. A presidente bateu pé, defendeu seus subordinados e soltou uma nota garantindo que Mercadante está firme no cargo e tem sua “total confiança”. Isso tudo aconteceu antes das manifestações de ontem. Antes de cerca de 1 milhão de pessoas tomarem o entorno da Avenida Paulista em protesto contra o governo. E agora, Dilma? O que fazer?

À noite, a presidente reuniu-se com ministros do núcleo de sua confiança para interpretar os eventos. Se analisaram os fatos com frieza, sem preconceitos, certamente concluíram que a caminhada de 15 de março em São Paulo não reuniu apenas a elite branca e os chamados “coxinhas”. Também não foi liderada por gente radical que prega o impeachment e o golpismo. O que se viu foi uma maioria pacífica e silenciosa de famílias que ali estava, numa espécie de footing interiorano de domingo, simplesmente para marcar a insatisfação com o governo e o PT. Gente decepcionada com os primeiros movimentos do segundo mandato de Dilma. O recado da Avenida Paulista foi dado e também chamou a atenção o ato em Brasília, com mais de 40 mil pessoas. Diante do que se viu pelo país, o ex-presidente Lula ganhou motivos para aumentar ainda mais as pressões por mudanças.

É pura perda de tempo comparar as passeatas da CUT e do MST com as manifestações de ontem. Os políticos do círculo palaciano sabem que as centrais sindicais têm meios e métodos para pôr seu pessoal na rua. Bem diferente é o movimento espontâneo de massa. O ex-presidente Lula não está exaltado à toa. Ele tem planos de concorrer a um terceiro mandato em 2018 e concluiu que, se o segundo governo Dilma não der certo, seu projeto corre risco de naufragar. Algo tem de mudar. Já. Nesta altura, não se trata apenas de mexer na composição do time responsável pela articulação política. Não basta trocar o Pepe Vargas ou incluir na roda de consultores Aldo Rabelo (PCdoB) e Giberto Kassab (PSD). O desgaste vai muito além das escaramuças na base aliada.

Está na hora de Dilma Rousseff e seus ministros fazerem um balanço destes 80 dias de governo. Há quem atribua a crescente irritação ao descompasso da economia. Por trás de tudo, estaria o baixo crescimento e a inflação em alta. Mas pesaria também a receita ortodoxa do ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Depois da disputa acirrada com o tucano Aécio Neves, não teria sido oportuno anunciar, logo após a posse, a redução das pensões do INSS e o aumento das exigências para ter direito ao seguro-desemprego. Não é falta de sensibilidade política deixar as universidades federais à míngua, por conta de corte no orçamento? Por que não voltar atrás? Dilma tem pela frente três anos e nove meses de mandato. Não falta tempo para acertar o passo.

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