Por diana.dantas

O que não falta agora são avaliações sobre as manifestações de domingo. Fazendo coro com alguns petistas mais empedernidos, o ministro Miguel Rossetto, escalado pela presidente Dilma Rousseff para defender o governo na noite de domingo, afirmou que o protesto partiu basicamente de gente que não votou em Dilma. Ou seja, perdedores que permanecem inconsoláveis. Bem mais conciliador, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, reconheceu que os protestos fazem parte da democracia e garantiu que o governo “está disposto a ouvir a voz das ruas”. Ontem, após reunião do conselho político com a presidente, Cardozo bateu na mesma tecla: “A ideia do diálogo não é algo retórico, é algo real e objetivo. Nós queremos dialogar com todas as forças políticas para que possamos buscar encontrar convergências”.

Na avaliação de Cardozo, o denominador comum das manifestações é a crítica à corrupção. E, exatamente por isso, o governo vai anunciar até o fim desta semana o pacote anticorrupção. O Palácio do Planalto está convencido de que os protestos não são especificamente contra a presidente, mas, sim, contra todo o sistema político, daí a importância que também pretende conferir à reforma política. Dá-se como certa uma mudança no núcleo palaciano responsável pela articulação política. O ministro Aloizio Mercadante, da Casa Civil, ficará restrito às atribuições da pasta e o deputado Pepe Vargas será substituído à frente das Relações Institucionais. Enfim, Dilma daria sinais de que não é tão irredutível como se diz. A presidente mostraria o jogo de cintura que lhe vem sendo cobrado por aliados, entre eles o ex-presidente Lula.

Se há sinais de avanços na frente política, é de se esperar que haja concessões também na política econômica. Como disse o professor Carlos Alberto Cosenza, da UFRJ, em entrevista ao Brasil Econômico, “quando você toma medidas restritivas, tem que ter medidas compensatórias, é preciso apresentar um horizonte ao empresário”. Ele acusa a falta de um plano de metas e adverte que o governo, em lugar de cortes na Educação, na Saúde e na Segurança, devia melhorar a qualidade de seus gastos. Frei Betto, que é compadre de Lula e fundador do PT, fez crítica semelhante em artigo no jornal O Dia: “O novo lema do governo – 'Brasil, Pátria Educadora' – foi anunciado em um dia e, no outro, R$ 14 bilhões foram cortados da Educação”. O dominicano, que também é amigo de Fidel Castro, não vê luz no fim do túnel: “O país não apresenta perspectivas de crescimento em 2015. A inflação aumenta a cada mês, e o dólar, a cada dia. Não há investimentos à vista”.

Algum integrante do governo poderá fazer pouco da crítica de Frei Betto e argumentar que a política econômica não é propriamente a especialidade do ilustre petista. Acontece, porém, que os técnicos também estão cada vez mais pessimistas. Ontem, o boletim Focus, que traz a previsão das principais instituições financeiras, apontou para inflação de 7,93% e queda do PIB de – 0,78%. Na sexta-feira, em diagnóstico conjuntural, o Departamento Econômico do Bradesco também entregou os pontos. “Nos últimos meses, as surpresas negativas com a economia brasileira têm sido mais intensas e rápidas do que poderíamos esperar. Uma conjunção de elementos domésticos, combinados com questões externas, tem deprimido a economia brasileira, que deve mostrar retração de 1,5% ante queda de 0,5% esperada anteriormente”.

Com a economia embicada para baixo, o mau humor reinante pode aumentar. E atingir também os que votaram em Dilma.

Você pode gostar