Um tempo de reservas morais

Com a morte de Therezinha Zerbini, o Brasil se despede de uma de suas filhas mais nobres e dedicadas

Por O Dia

A corajosa dona de casa católica pertenceu a um grupo de brasileiros e brasileiras que se destacaram nas horas mais difíceis da vida nacional. Fez parte do que, então, se chamava de reserva moral da Nação – gente de valor que enfrentou a repressão e denunciou os abusos do regime militar, de peito aberto e sem temer represálias. Dona Therezinha vai figurar para sempre no mesmo panteão do advogado Sobral Pinto, do cardeal Dom Hélder Câmara, do jornalista Barbosa Lima Sobrinho e do senador Teotônio Vilela. Com plena justiça, recebeu muitas homenagens por sua luta contra o autoritarismo. Em entrevista à revista Claudia, em 2012, ela foi taxativa: “Eu faria tudo de novo, com a mesma ousadia”.

Nestes dias de incerteza e mesquinharia política, vale a pena falar do exemplo de dignidade de dona Therezinha. Seu marido era o general Euryale de Jesus Zerbini, comandante da unidade de Caçapava e um dos poucos oficiais de alta patente que reagiram ao golpe contra o presidente João Goulart, em 1964. O irmão do cardiologista Euryclides Zerbini pagou caro: foi cassado pela ditadura. Com o marido vivendo no interior, Therezinha permaneceu em São Paulo, atuando na resistência aos militares. Abnegada, fez de tudo um pouco. E ajudou a todos que a procuraram, desde fornecer documentos falsos até dar refúgio a estudantes perseguidos pela polícia. “Nunca deixei de auxiliar ninguém”, lembrou ela, que também levantou recursos para quem vivia na clandestinidade. Conta-se que, numa dessas ações, abrigou em sua casa no Pacaembu o Cabo Ancelmo, o comandante da greve dos marinheiros que, anos mais tarde, foi denunciado como agente provocador e colaborador dos órgão de repressão.

Amiga do dominicano Frei Tito, Therezinha teria conseguido com familiares a autorização para que um sítio em Ibiúna servisse de sede para realização do Congresso da UNE em 1968. O encontro foi descoberto e centenas de estudantes saíram presos do local. Pela defesa dos direitos humanos e a suspeita de seu envolvimento no evento de Ibiúna, respondeu a inquérito policial militar e foi enquadrada na Lei de Segurança Nacional. No dia 11 de fevereiro de 1970, uma Quarta-Feira de Cinzas, foi presa em casa “por um certo capitão Guimarães”. Tinha 42 anos de idade e impediu o marido de ajudá-la: “Entrei nisso sozinha, vou sair sozinha”. Ficou presa por oito meses, seis deles no Presídio Tiradentes, onde conheceu a ex-guerrilheira Dilma Rousseff.

Em 1975, dona Therezinha criou o Movimento Feminino pela Anistia, um dos braços fortes da luta pela redemocratização do país. Conseguiu de início 16 mil assinaturas de apoio e abriu unidades em várias capitais, com a adesão de partidos políticos e associações de classe. Em fevereiro de 1978, a partir da semente lançada pelo MFA, nasceu o Comitê Brasileiro pela Anistia, com apoio da Ordem dos Advogados do Brasil. Estava cimentado o caminho para a anistia ampla, geral e irrestrita, que veio em agosto de 1979. Graças ao esforço de Therezinha Zerbini, a dona de casa paulistana que pertenceu a um tempo em que o Brasil tinha reservas morais.

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