Debaixo de fogo amigo

Não bastasse a descrença petista, o PMDB, de Temer, Renan e Cunha, especializou-se em infernizar a vida do Palácio do Planalto

Por O Dia

Nunca é demais repetir: com os aliados que tem, a presidente Dilma Rousseff não precisa de inimigos. É impressionante. Todo santo dia surgem notícias e comentários que mostram cabalmente a decepção de políticos do PT e do PMDB com os rumos do governo Dilma. Conta-se, por exemplo, que ao ouvir queixas de Paulo Paim (PT-RS) contra o ajuste fiscal, o ex-presidente Lula pôs lenha na fogueira e aconselhou que o senador gaúcho não traia sua consciência. “Em nenhum lugar está escrito que ele tem que votar como quer o governo”, teria dito Lula. Ainda mais espantosa é a nota de ontem no Painel da “Folha”. Segundo o relato, o presidente do PT, Rui Falcão, ao pedir apoio dos petistas a Dilma, fez uma referência aos dias que precederam o golpe contra Salvador Allende no Chile, em 1973. “Como diziam os chilenos pré-queda do Allende: ‘É um governo de merda, mas é o meu governo'. (O governo Dilma) Não é de merda, mas é o nosso governo, e temos de defendê-lo”.

O conselho de Lula não chega a surpreender. Sabe-se que o ex-presidente recentemente manteve uma discussão acalorada com sua afilhada política e também não é segredo que atira em nomes do governo e faz críticas pesadas nas conversas com empresários. Quanto a Rui Falcão, parece que ele está chegando ao limite das forças. A maioria dos parlamentares do PT mostra-se refratária às mudanças em mecanismos sociais como o seguro-desemprego e o auxílio-doença (o senador Paim não é caso isolado). Aceitam a necessidade do ajuste, mas não a dosagem proposta pelo ministro Joaquim Levy. Explica-se, assim, a comparação extrema feita por Falcão. Para além da imagem desairosa, vale ressaltar que o paralelo com o governo Allende é totalmente descabido. O Brasil vive um longo ciclo de democracia plena e o governo Dilma não corre nenhuma ameaça golpista. A não ser que se queira levar a sério as trocas de ofensas radicais na internet.

O problema da presidente Dilma é de outra ordem. Não bastasse a descrença petista, o PMDB, do vice Michel Temer e dos presidentes do Senado e da Câmara, Renan Calheiros e Eduardo Cunha, especializou-se em infernizar a vida do Palácio do Planalto. Na investida mais recente, Cunha comandou a aprovação-relâmpago do projeto que obriga a União a cumprir lei que reduz as dívidas de Estados e municípios. A decisão, que será submetida à sanção presidencial, bate de frente com o ajuste fiscal, mas acata demandas de governadores e prefeitos. “Nós estamos fazendo um imenso esforço fiscal. Agora, não temos condições de fazer essa despesa”, reclamou Dilma, sem esconder a irritação com a liminar obtida pelo prefeito do Rio, Eduardo Paes, a favor da aplicação imediata das novas regras.

Diante do imbróglio, o ex-governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, atacou o que qualificou de inércia de seu partido e também criticou a fragilidade do governo. “O PT ficou inerte total e o PMDB, já com projeto próprio e claro, 'esnucou' o governo, na questão da dívida dos Estados. Em face desta inércia, aliado 'mui amigo' desgasta governo que não reestrutura dívida e o partido da presidenta que emudeceu", afirmou Genro, em mensagem no Twitter. Para o ex-governador, a presidente Dilma Rousseff só tem um caminho a seguir: buscar uma 'concertação' com forças sociais e políticas que “não querem o quanto pior melhor”. O tom de Tarso Genro também é de desânimo. Mas o conselho parece sincero. De amigo de verdade.

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