Por monica.lima

O presidente do PT, Rui Goethe da Costa Falcão, é um homem honrado. Vem de um tempo em que a atividade política se pautava por rígidos padrões de ética. Marxista convicto, participou da luta armada na VAR-Palmares, foi preso e torturado. Do suplício, herdou por muito tempo um tique nervoso. Cumpriu pena ao lado do então marido de Dilma Rousseff, o brizolista Carlos Araújo Paixão, na Ilha das Pedras Brancas, no Guaíba, em Porto Alegre. Ao ser libertado, Rui dedicou-se ao jornalismo. Já estava trabalhando em São Paulo quando Wladimir Herzog foi morto pelos algozes do Doi-Codi, no quartel da rua Tutoia, em 1975. Mais tarde, dedicou-se às revistas técnicas da Editora Abril, que deram origem à revista Exame. Ao mesmo tempo em que se destacava na Abril (foi de redator a diretor de redação de Exame), dedicou-se à construção do Partido dos Trabalhadores ao lado de José Dirceu. Ganhou vida própria e conquistou consecutivos mandatos de deputado estadual até assumir a presidência do PT, cargo que ocupa desde 2011.

Com base na própria biografia, Rui faz enorme esforço para preservar o PT diante dos escândalos que se sucedem. Mesmo que isso signifique lutar contra as evidências colhidas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público. Apesar das pressões de quadros históricos como o ex-governador Tarso Genro, Rui conseguiu adiar o afastamento do tesoureiro João Vaccari Netto da Executiva Nacional do PT. Ele admite a gravidade das acusações sobre envolvimento de Vaccari com o esquema revelado pela Operação Lava-Jato, mas afirma que seu desligamento significaria uma condenação sumária. “Ninguém pode ser condenado até prova em contrário. Todos têm direito ao devido processo legal, afirma Rui, que é formado em Direito pela USP. A exposição de Vaccari na CPI na última quinta-feira foi frágil e hesitante, mas a decisão sobre o destino do tesoureiro só será tomada na reunião da Executiva da próxima sexta-feira, dia 17. Assim quis Falcão.

Enquanto o presidente do PT faz o possível para preservar seu partido, os fatos provocam desgaste cada vez mais profundo. Foi reprovável a atitude de soltar ratos no chão da CPI da Petrobras durante o depoimento de Vaccari, mas o simbolismo da imagem é forte e correu mundo. Como não ficar indignado diante dos inúmeros exemplos de desvios de conduta e de assalto aos cofres públicos. A cada nova ação da Polícia Federal, confirma-se o pouco caso de políticos às leis e ao patrimônio público. Aí está o caso do ex-deputado André Vargas, que foi vice-presidente da Câmara e se notabilizou ao ofender o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa. A PF acusa-o de ter montado um esquema de corrupção envolvendo verbas de publicidade no Ministério da Saúde e na Caixa Econômica. Com seu tráfico de influência, privilegiou a agência BorghiLowe e recebeu mais de R$ 1 milhão pelos serviços. Conseguiu também um contrato de R$ 50 milhões para a empresa de seu irmão Leon. O ex-deputado está preso desde sexta-feira e teve a casa no sofisticado bairro de Alphaville, em Londrina, confiscada por ordem do juiz Sérgio Moro.

Em seus dias de mau uso do poder, André Vargas pertencia ao PT, do qual foi também secretário de comunicação. Sua prisão, portanto, é mais um motivo de dor de cabeça para Rui Falcão. Comandar o PT hoje, neste dias de ratos na Câmara, é uma tarefa muito difícil para homens de bem. Quase impossível.

Você pode gostar