Os caderninhos de Brizola

Para evitar surpresas, os candidatos à Presidência devem ter controle rígido sobre as finanças de suas campanhas. Se possível, anotem tudo numa agenda pessoal

Por O Dia

Nestes dias em que a política se tornou caso de polícia, com agentes da PF dando voz de prisão ao tesoureiro do PT, muita gente se pergunta sobre o que diria o ex-governador Leonel Brizola a respeito dos acontecimentos. Uma coisa é certa: o líder trabalhista dificilmente seria alvo deste tipo de investigação. E o motivo é muito simples. Na arrecadação para cobrir despesas de suas campanhas, Brizola não usava intermediários. Não havia qualquer chance de alguém levantar recursos em seu nome. Certa vez, em 1989, um deputado arriscou-se a fazê-lo, mas foi denunciado por empresários aos quais pediu a colaboração e caiu em desgraça no PDT. Pela longa amizade e o exílio em comum, Brizola perdoou o correligionário, mas não o reintegrou à direção do partido. Quando ele morreu, anos depois, recebeu homenagem do chefe.

Portanto, nada que dissesse respeito às finanças do PDT era feito sem o conhecimento de Brizola. Na disputa pelo Palácio do Planalto em 1989, os contatos com os potenciais financiadores eram feitos pelo próprio candidato trabalhista. Inicialmente, ele despontou como favorito à passagem para o segundo turno contra Collor e despertou a simpatia de alguns empresários. Em geral, Brizola os recebia em seu apartamento em Copacabana, na companhia do fiel amigo Cibilis Viana. Quando chegava o momento de negociar o apoio financeiro, mandava que os assessores se retirassem. Então, sem rodeios, passava direto ao ponto, falando sobre os custos da campanha. Fazia o pedido em cifras altas, mas aceitava contraproposta mais realista. Fechado o acordo, retomavam-se as conversas informais, novamente na presença de assessores.

Ao longo da corrida eleitoral, o dinheiro ia irrigando o caixa da campanha, centralizado no mesmo endereço de Copacabana, num andar abaixo. As entradas e saídas de recursos eram registradas cuidadosamente por Brizola, em agendas. E seus lançamentos eram infalíveis. Que ninguém tentasse enganá-lo. Entrou para o folclore, por exemplo, o caso que envolveu um grande empresário de São Paulo. Depois de fechar sua contribuição, enviou um emissário ao Rio com dois cheques que somavam milhares de dólares. Na antessala de Brizola, o envelope foi entregue a um deputado que se comprometeu a encaminhá-los à direção da campanha. Houve testemunhas. Meses depois, com Fernando Collor já eleito, Brizola ligou para o financiador e explicou que não recebeu o apoio combinado. Cobrou explicações também do emissário e este narrou o caminho seguido pelos cheques. O deputado desculpou-se e alegou que usou o dinheiro para cobrir algumas despesas da própria campanha. Bastante irritado, Brizola fez pressão e exigiu a devolução imediata do montante equivalente à anotação em seu caderno. O que foi feito pelo faltoso, sem pestanejar.

Voltamos, então, à pergunta inicial deste artigo: qual seria a reação de Leonel Brizola diante da prisão do tesoureiro João Vaccari Neto? Para começo de conversa, o ex-governador daria, sem dúvida, um conselho ao PT de Lula e Dilma Rousseff. Para evitar surpresas futuras, os candidatos à Presidência devem ter controle rígido sobre as finanças de suas campanhas. Neste caso, em que reputações políticas estão em jogo, não deve haver intermediários e muito menos terceirização. Se possível, mesmo quando as cifras atingirem milhões de reais, anotem tudo numa agenda pessoal. E desconfiem da própria sombra.

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