Por diana.dantas

O depoimento da doleira Nelma Kodama ontem de manhã na CPI da Petrobras provocou risadas dos deputados e na plateia. Mas deveria servir, sim, para uma reflexão profunda sobre o pouco caso que a doleira fez dos senhores engravatados que a interrogaram. Condenada a 17 anos de prisão e conhecida por ter sido presa com 200 mil euros quando tentava fugir do país, Kodama transformou a audiência num verdadeiro circo. Sobre sua prisão, deu a seguinte explicação: “Duzentos mil euros são dois pacotinhos, eles não estavam na calcinha, estavam no bolso de trás”. E ao ser indagada sobre seu relacionamento com Alberto Youssef, ela sorriu, disse que viveu com o doleiro por nove anos e começou a cantarolar a música “Amada, Amante”, de Roberto Carlos. Poucas vezes se viu cena tão patética numa CPI do Congresso.

Bem que o presidente da CPI, Hugo Motta (PMDB-PB), tentou enquadrar a depoente, pedindo que respeitasse o Parlamento. Mas o mal já estava feito. Kodama mostrou que o Congresso Nacional, hoje, não é respeitado por ninguém, nem mesmo por gente mandada para a cadeia pela Justiça. Que respeito pode exigir uma CPI que tem por relator um deputado que o tesoureiro do PT João Vaccari Neto arrolou como testemunha? Que respeito pode exigir uma CPI que está destinada a ser sombra pálida do trabalho eficiente realizado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal? Mesmo que não termine em pizza, a CPI dificilmente avançará em relação ao trabalho corajoso do juiz Sérgio Moro.

Fruto de um acordo dos grandes partidos, a CPI da Petrobras nasceu torta e morrerá torta. É retrato fiel de um Congresso nivelado por baixo. A cada Legislatura, a classe política mostra menos qualidade. Confirma-se o que diziam políticos experientes nos anos 70 e 80 do século passado. A ditadura militar, ao cercear a democracia e a atividade parlamentar, iria abrir um fosso na formação de novos dirigentes políticos. Sem exemplos e pontos de referência na vida pública, os novos parlamentares teriam visão tacanha e personalista. Passariam a olhar para o próprio umbigo. Parecia uma previsão pessimista. Mas o fato é que a política brasileira ficou mais pobre. À direita e à esquerda. Por acaso, dá para comparar um Jair Bolsonaro ao udenista Carlos Lacerda? O que dizer de Carlos Lupi na presidência do PDT criado por Leonel Brizola?

Se Ulysses Guimarães foi presidente da Câmara durante a Constituinte, a Casa do Povo, nestes dias melancólicos, é presidida por Eduardo Cunha, a eminência parda que saiu das sombras. No Senado, que tem no seu plenário o busto de Rui Barbosa, o ultrapragmático Renan Calheiros dá as cartas e faz pressão por que não conseguiu uma boquinha para seus apadrinhados. E Renan não está sozinho em sua concepção distorcida sobre o objetivo da política. Hoje, no Congresso, estão todos de olho nos 160 cargos públicos que devem ser distribuídos por Michel Temer aos que demonstrarem fidelidade ao governo na votação do ajuste fiscal. Não há mais pudor. O toma lá dá cá, agora, é feito à luz do dia.

Vai longe o tempo em que nossos jovens se inspiravam nos homens públicos. Aqui do meu lado, colegas da editoria de Cultura concordam e dizem que o nível também caiu muito na literatura e na música. Se assim é, só nos resta acreditar que o Brasil resiste a tudo. É maior do que a crise. Como disse Chico Buarque, amanhã há de ser outro dia.

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