Dias de som e fúria

Por mais que Michel Temer, em sua missão de negociador, ofereça cargos públicos, a base aliada comporta-se como um exército em debandada

Por O Dia

A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, sem sentido algum. A frase de autoria de William Shakespeare é clássica e está lá no quinto ato de “Macbeth” para quem quiser ler. É uma das mais citadas do bardo inglês (1564-1616). Aplica-se a momentos de dificuldades individuais, mas serve também para identificar dias difíceis da vida nacional. O que dizer desta quadra que o Brasil atravessa? Faz algum sentido a marcha das votações do ajuste fiscal na Câmara e no Senado? É possível entender uma base aliada que vota contra os projetos do governo? Em outra frente, como explicar aos trabalhadores que enfrentam a fila do seguro-desemprego a necessidade do ajuste fiscal? O fato é que o país está em crise. Na política e na economia, parece roteiro de alguém que perdeu o juízo.

Hoje, será divulgado com pompa e circunstância o corte no Orçamento, entre R$ 70 e 80 bilhões. Trata-se da principal arma do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, para resgatar a credibilidade na economia brasileira. Diz ele que só assim serão retomados os fundamentos sólidos, com o reequilíbrio dos gastos públicos para cumprir a meta de superávit de 1,2% do PIB. Na visão de Levy, a austeridade fiscal trará de volta a confiança de empresários e consumidores. Para os economistas que apoiam a receita amarga, o ministro representa a volta da racionalidade na política econômica. Irracionais seriam os keynesianos, que têm saudades das medidas anticíclicas de Guido Mantega e fazem críticas à ortodoxia do atual titular da Fazenda.

Ao largo do debate teórico, trazem inquietação e incerteza os resultados sofríveis da economia. As más notícias surgem quase todo dia. Na fornada mais recente, o IBC-BR, índice elaborado pelo Banco Central, mostrou que o PIB encolheu 0,81% no primeiro trimestre e o IBGE anunciou que a taxa de desemprego subiu para 6,4% em abril. Segundo o IBGE, o que ocorre de diferente agora é o aumento importante e seguido da desocupação. Coerentemente com o ambiente de vacas magras, a arrecadação federal caiu 4,62%, o pior mês de abril desde 2010. Para os técnicos da Receita, a queda está em linha com a desaceleração da economia e a queda na produção, no consumo e na lucratividade das empresas. Diante de números tão negativos, a pergunta torna-se inevitável: Qual será o efeito do corte orçamentário? Não vai agravar a queda na produção? Por quanto tempo?

A dúvida sobre o ajuste fiscal se justifica. Mas nada tem a ver com o clima de fim de feira que tomou conta do Congresso. Ali, o terreno é árido e inóspito para tudo que vem do Palácio do Planalto. Por mais que o vice-presidente Michel Temer, em sua missão de negociador, ofereça cargos públicos, a base aliada comporta-se como um exército em debandada. Na Câmara, a votação do projeto que prevê o fim da desoneração da folha de pagamento das empresas foi adiada porque o relator não concluiu seu relatório. O texto só será apreciado em meados de junho. No Senado, o próprio governo pediu o adiamento da votação da Medida Provisória 665, que altera as regras do seguro-desemprego e do abono salarial. Corria o risco de ser derrotado por votos dos rebeldes ou de ver seu projeto desfigurado.

A política hoje está fora do eixo, como dizia o senador Suplicy. Mas há que manter a esperança. Afinal, Shakespeare também nos ensinou em “Macbeth” que “não há longa noite que não encontre o dia”.

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