O Brasil é maior do que ministros

Não é crível que um país com mais de 200 milhões de habitantes e um PIB superior a R$ 5 trilhões tenha seu destino nas mãos de um indivíduo

Por O Dia

Causam certo espanto comentários que correm no mercado financeiro sobre as consequências terríveis para o país diante da hipótese de o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, deixar o governo. Diz-se que só Levy será capaz de levar a economia brasileira a um porto seguro. Sem ele, o Brasil perderá o grau de investimento e mergulhará no caos. Levy é o fiador da racionalidade e do bom senso. Caso desista ou seja afastado, ficará determinado o fim prematuro da política de estabilização. Nesta visão exagerada, devemos a presença de Levy no governo Dilma à providência. Só ele tem as respostas certas, dizem os analistas que não veem alternativa a não ser a receita austera do economista que se especializou em fechar a chave do Tesouro, nacional ou estadual. Se Levy deixar o poder, será um deus nos acuda.

Joaquim Levy, sem dúvida, tem excelente formação e é respeitado no mercado e no meio acadêmico. Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas e PHD pela Universidade de Chicago, sempre se saiu bem nas funções que exerceu. Depois de chamar a atenção como titular da Secretaria do Tesouro Nacional no primeiro governo Lula, mostrou competência à frente da Secretaria da Fazenda do Estado do Rio de Janeiro. Antes havia trabalhado no FMI de 1992 a 1999 e, ainda em Washington, chegou a vice-presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Não lhe faltam, portanto, méritos. E isso pesou na decisão da presidente Dilma ao nomeá-lo para reorganizar as finanças públicas. Não foi a primeira escolha, mas figurava entre os nomes cogitados. No momento da indicação, estava no setor privado: era diretor-superintendente da divisão de ativos do Bradesco (em inglês, Bradesco Asset Management).

Não há como negar, portanto, que Levy tem os predicados necessários para comandar a Fazenda. De perfil altamente técnico, nada impede que seja aproveitado num governo petista. Há quem diga até que é o homem certo no lugar certo. Tudo bem. Mas o que provoca estranheza é a importância vital que se atribui ao ministro. Não é crível que um dos maiores países do mundo, com mais de 200 milhões de habitantes e um Produto Interno Bruto superior a R$ 5 trilhões tenha sua sorte depositada nas mãos de um indivíduo. Entende-se a simpatia do FMI pelas medidas de ajuste fiscal e também é natural a reação positiva que a receita ortodoxa de Levy provoca nas agências de classificação de risco. Mas daí a afirmar que Levy é insubstituível vai grande distância. Não custa lembrar que o favorito de Dilma para o cargo era o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco Cappi.

No clássico “Guerra e Paz”, o grande escritor Leon Tolstoi descreve em detalhes a invasão da Rússia pelas tropas de Napoleão Bonaparte em 1812 e a retirada humilhante dos franceses no outono daquele mesmo ano. Ao contrário dos historiadores da época, Tolstoi desconfia da genialidade de Napoleão, a quem atribui erros grosseiros. Acima de tudo, considera um equívoco atribuir-se fatos históricos à vontade de um único homem. Ele lembra, por exemplo, que Napoleão jamais deu a ordem para invadir a Rússia. Foi arrastado pela sequência de eventos. A mensagem de Tolstoi é clara e se aplica ao fervor quase religioso daqueles que temem a saída de Levy. O Brasil tem vida própria, move-se por si mesmo e independe do destino de seus ministros da Fazenda. Seguirá em frente, com Levy ou sem Levy.

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