Por monica.lima

A presidente Dilma Rousseff estudou em colégio de freiras e aprendeu francês na juventude. Certamente, ouviu uma história chamada “Le Roi Malheureux”. Existem várias as versões sobre as agruras do rei infeliz, mas uma delas era leitura obrigatória nas aulas de gramática da Aliança Francesa. O jovem monarca vivia em seu castelo tomado de profunda melancolia. Não confiava em ninguém, nem na rainha. Os médicos faziam o possível para reanimá-lo, mas de nada adiantavam os remédios. Sua Majestade continuava triste. Enquanto isso, o reino ia mal, com os súditos em dificuldade. Até que certo dia, do alto de sua carruagem, o rei viu uma camponês na beira da estrada, a lavrar a terra, sem camisa e exposto ao sol forte.

Trabalhava e cantarolava. Um homem feliz. O rei ordenou que parassem e perguntou-lhe o que fazer para ser feliz. O camponês sorriu e disse: “Tire a camisa e venha apanhar um pouco de sol”. A partir dali, tudo mudou na vida do rei. Era mesmo difícil ser feliz na redoma do castelo, cercado de nobres também doentios. Contra a melancolia do poder, nada melhor do que respirar ao ar livre.

Para quem assistiu à entrevista de Dilma a Jô Soares na biblioteca do Palácio da Alvorada na noite de sexta-feira, ficou claro que nossa presidente, às vezes, vive momentos de solidão semelhantes ao do “roi malheureux”. Sem esconder uma certa melancolia, ela referiu-se aos dias em que era uma pessoa “normal”. Explicou a Jô que costuma falar de “quando andava na rua normalmente, quando entrava nos lugares normalmente”. E lembrou que, nos tempos anteriores à presidência, reagia às críticas mais fortes. Agora, ressaltou, a situação é diferente. “Tenho de aceitar que as pessoas não gostem do que eu faço. É da atividade pública. Eu não levo no pessoal”. Apesar de aceitar as críticas, Dilma disse a Jô que fica triste. “É todo dia. Tem horas que exageram um pouco. Pegam pesado. Agora, se você quer saber se eu fico triste? Fico, sim. Em algumas horas, eu fico bastante triste. Porque é aquele negócio: ninguém é de ferro”. Em outro ponto da conversa, a presidente confirmou que está “bastante agoniada” com a inflação.

Dilma Rousseff vive bastante isolada. No Alvorada, tem apenas a companhia da tia e da mãe. O restante da família (ex-marido, filha, genro e neto) está longe, em Porto Alegre. Ela passa as horas livres na biblioteca, cercada de livros. Mesmo nos passeios de bicicleta, faz-se acompanhar apenas do preparador físico e do segurança. Tem poucos amigos. Rara exceção é o ex-presidente Lula, com quem volta e meia se encontra para troca de ideias. De resto, suas relações são institucionais, com ministros e assessores. Hoje, por exemplo, é dia de reunião do conselho político, formado por Michel Temer, Aloizio Mercadante, Jaques Wagner, Edinho Silva e Miguel Rosseto.

A presidente conhece o perfil de cada um deles e sabe o que vai ouvir. Alguns têm mais intimidade como Rossetto e Wagner, outros menos. E não se sabe se Dilma fala com eles sobre suas tristezas, angústias e decepções.

É este ponto que preocupa. Se a presidente Dilma Rousseff sente saudades dos tempos em que “era normal”, deveria fazer como o rei infeliz e ir buscar opinião fora da Corte. Ela deveria seguir o exemplo do camponês e arejar as ideias. É tempo sair do Planalto e de ouvir gente independente, fora do círculo do poder.

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