Vendo fantasmas

Há muita gente viva que sabe muito bem no que deu o governo do caçador de marajás. Seu testemunho matará pela raiz uma nova aventura

Por O Dia

Em meio aos comentários sobre a crescente radicalização política do país, surgem preocupações com o que pode acontecer como resultado desta tendência. Nas redes sociais, algumas vozes ainda moderadas advertem que, a seguir assim, pode se abrir o caminho para aventureiros e, no limite, para correntes saudosas de regimes autoritários e até mesmo fascistas.

A primeira hipótese foi reavivada pelo jornalista Ilimar Franco, em sua coluna no “Globo”. Segundo ele, “com o governo Dilma no chão, o PT na vala comum e a oposição incapaz de empolgar o país, há o risco de um novo caçador de marajás ocupar esse vazio”. Para quem é jovem, Ilimar está se referindo à vitória de Fernando Collor em 1989. A outra hipótese, bem mais sombria, considera que o vazio pode se transformar em terreno fértil para grupos de extrema-direita, com bandeiras reacionárias e oportunistas. Neste caso, cita-se o exemplo do nacional-socialismo de Hitler, na Alemanha de 30.

As pessoas que apontam o fantasma do fascismo estão espantadas com a postura atrasada de parte expressiva do Congresso Nacional. A guinada à direita tem trazido apreensão aos setores progressistas da sociedade. Em recente entrevista, a atriz Marieta Severo disse que tem receio do que chamou de recaída conservadora. De fato, causam estranheza as investidas contra conquistas sociais e democráticas. Parlamentares não se constrangem ao defender posições condenadas em todo o mundo. Ainda hoje há quem trate como maldição direitos de minorias. Se estivessem nos EUA certamente estariam do lado dos grupos racistas. Se na Europa, engrossariam os movimentos nacionalistas contrários à imigração. Se no Oriente Médio, formariam nas forças do estado Estado Islâmico. Em nome de preconceitos religiosos, é gente que surfa no obscurantismo.

Daí a acreditar que as correntes extremistas podem tomar o poder no Brasil vai grande distância. A democracia está cristalizada em nosso país e não há chance de golpes. Muito menos que surja um “salvador da pátria”. Vale lembrar que Hitler beneficiou-se de uma situação única na história: a Alemanha derrotada e humilhada, com a economia destruída. Mesmo assim, Hitler perdeu as eleições em 1932. Tornou-se chanceler um ano mais tarde, mas de forma indireta. Até ali, tinha apoio das potências europeias. A face doentia e criminosa do nazismo só foi revelada mais tarde. Além disso, a tendência da época era de estado forte. A lista de ditadores nos anos 30 e 40 é grande: Mussolini na Itália, Franco na Espanha, Salazar em Portugal, Stálin na Rússia e Vargas no Brasil. Nos EUA, depois de Roosevelt na Presidência por 12 anos seguidos, admite-se apenas uma reeleição.

Se não há ameaça autoritária, também é exagero ver espaço para outro Collor. Em 1989, também houve uma tempestade perfeita. As forças à esquerda ficaram divididas entre Brizola e Lula, sem falar das candidaturas de Mário Covas e Ulysses Guimarães. Já a direita se uniu em torno do jovem governador Alagoas. Para sorte dele, o carismático Brizola, que representava as forças políticas atingidas pelo golpe de 1964, não chegou ao segundo turno, por pequena diferença. Foi Lula, à frente de um PT nanico e ingênuo, que disputou a final. Perdeu fácil, mas pesquisas mostram que Brizola derrotaria Collor. Felizmente há muita gente viva que sabe muito bem no que deu o governo do caçador de marajás. Seu testemunho matará pela raiz uma nova aventura. Esta história não se repetirá. Jamais.

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