Por bruno.dutra

É um momento único para escutar também a reflexão dos mais de 180 governadores — em sua maioria ministros da área econômica — que representam seus países nesta Babilônia multilateral. Em geral, no FMI fala-se mais da situação macrofinanceira global, e no Banco Mundial discutem-se as questões de “mais longo prazo”, estruturais do desenvolvimento econômico e social.

Desde a reunião de outubro passado, isso tem mudado: cada vez mais no FMI se discute a desigualdade como tema fundamental para a estabilidade macrofinanceira global — temas aprofundados nas discussões do Banco Mundial. Sinais dos tempos, ou de que aumentam as dúvidas sobre a propriedade dos debates anteriores? Ambos.

Para começar, é preciso alguma cautela ao ler os dados sobre a recuperação global. Há claros sinais positivos: o FMI, por exemplo, estima que o PIB mundial continue crescendo em 2014 (3,6%) e em 2015 (3,9%). Porém, esta recuperação não tem sido suficiente para dar muito ânimo para a demanda global — e um dos primeiros a sentir o impacto é a atual máquina de exportar do planeta, a China. Em dezembro de 2013 quando se anunciou a estagnação das vendas externas chinesas, muito abaixo do crescimento de 4% previsto por muitos, alguns economistas assumiram que a queda resultara das medidas implementadas pelas autoridades chinesas (para reprimir a evasão aos restritos controles de capital através de mecanismos de subfaturamento de vendas externas).

Entretanto os dados de março jogaram água fria sobre os mais otimistas: anunciou-se uma retração anual das exportações anuais chinesas de 6 6%. A essa notícia, somam-se os decepcionantes dados, anunciados na semana passada, sobre as exportações de algumas economias da OCDE (Inglaterra e Franca, por exemplo), e muitos começam a desconfiar que está se formando uma tendência de crescente divergência, no nível global, entre crescimento da produção e da demanda. Este tipo de divergência tende a ser corrigido com o tempo, o que poderia levar taxas de crescimento globais muito inferiores às expectativas.

A chave para entender esse descompasso parece ser de fato a desigualdade. No período anterior à crise de 2008, o crescimento nas economias desenvolvidas, mais especialmente nos Estados Unidos, ocorreu com uma quase estagnação do rendimento médio das famílias. A maior parte da demanda adveio da expansão do financiamento e do emprego no setor de serviços.

Desde a crise de 2008, apesar do enorme esforço dos bancos centrais nas economias da OCDE em manter a liquidez, a demanda por financiamento tem sido obstruída pelo peso do endividamento familiar, da maior aversão a risco por parte das instituições financeiras e por uma regulação crescentemente restritiva. A classe média nas economias industriais não só tem menos emprego, mas mesmo os que mantiveram seus empregos têm menos condições e apetite para manter um consumo minimamente similar ao anterior à crise.

Nas economias emergentes, com a notável exceção dos países da América Latina (com destaque para o Brasil), houve também um aumento da desigualdade. A redução da pobreza e o crescimento da renda familiar se deu especialmente através da expansão do emprego direta ou indiretamente associada ao crescimento da demanda global.

A crise gerou mudou esse quadro, as autoridades chinesas prontamente perceberam o risco que uma retração da demanda nas economias industriais representava para as suas empresas, e para o nível de emprego doméstico, e passaram a promover fortemente o investimento em infraestrutura, construção e capacidade produtiva. Esta política chinesa deu muito alento a diversos emergentes e gerou entre os economistas a ilusão de que as economias emergentes haviam se “descolado” (decoupled, em inglês) das economias centrais.

Mas mesmo em uma economia ainda fortemente dirigista, não se mantém essa dinâmica se não surgem sinais de crescimento sustentado da demanda. E o resultado esta aí: o governo chinês está correndo contra o tempo para expandir a capacidade interna para absorver um excesso de oferta imobiliária, de capacidade produtiva e de infraestrutura na China. Mas essa corrida tem obstáculos enormes: por exemplo, como aumentar os salários sem afetar a competitividade; como promover o crescimento do emprego urbano (com salários mais elevados) sem gerar um colapso ambiental; e como ampliar o crédito frente aos riscos impostos pelo elevado endividamento interno e a fragilidade financeira gerada por um sistema “paralelo” bancário (o chamado sistema bancário sombra).

Outro dado preocupante sobre a demanda global foi recentemente anunciado pelo “Financial Times”. O pouco crescimento global gera a possibilidade de um crescimento das economias emergentes a uma taxa 2,5% inferior à média da década anterior à crise de 2008. Com isso, já há sinais de alerta para uma possível retração da classe média em economias emergentes — que ainda possui cerca de 1 bilhão de empregados na faixa de renda entre US$ 2 e US$ 10 dólares ao dia.

Em países sem redes de seguridade social mínima, a perda do emprego pode simplesmente fazer com que os trabalhadores e seus dependentes retornem à situação de pobreza extrema. Se isso ocorrer, não só o sofrimento humano será enorme, como também aumentarão os riscos de instabilidade política e de mais retração da demanda global.

Há dez anos, quase todos aqui em Washington estavam seguros sobre o caminho correto da economia global. Por um lado, com a integração comercial e financeira acelerada, as economias desenvolvidas desfrutavam de taxas de crescimento suficientemente altas para garantir alto emprego, enquanto nas emergentes ocorria uma redução da pobreza de enormes fatias da população.

Aqueles que não desfrutavam da globalização deveriam debitar a conta à teimosia das suas lideranças políticas, que não realizavam os ajustes estruturais e reformas econômicas voltadas a flexibilizar os mercados domésticos e ampliar o grau de abertura financeira e comercial. A desigualdade era tida como um problema ético, mas não um empecilho para a continuidade do progresso econômico que parecia favorecer a todos — desenvolvidos e em desenvolvimento, ricos e pobres.

O descompasso global persistente entre oferta e demanda tem feito com que as instituições de Bretton Woods reavaliem suas convicções, suas recomendações e — mesmo que muito lentamente — suas formas de operar. Por exemplo, o FMI pede aos seus acionistas para enfrentar seriamente o problema da desigualdade, em contextos de ajustes macroeconômicos e estruturais e mesmo em período de crise; enquanto o Banco Mundial adicionou ao seu mandato de redução de pobreza o tema da inclusão econômica social. São sinais do tempo, mas também o reconhecimento de que algumas de suas prévias convicções estavam simplesmente equivocadas.

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