Por monica.lima

O economista americano Hyman Minsky faleceu em 1996. Até 2008, sua notoriedade se resumia a um grupo de economistas, seguidores de Keynes, que acreditava que o mundo de negócios teria duas características fundamentais: por um lado, enorme capacidade de inovação; e, por outro, a de provocar crescente fragilidade financeira nas economias de mercado. A cada crise financeira nas últimas décadas, seu nome voltaria às manchetes, mas foi a partir da crise de 2008 que sua popularidade atingiu o auge. O mundo das finanças mais uma vez apresenta inovações capazes de revolucionar os sistemas de pagamentos, de financiamento e de negociações de ativos. Nada haveria de mal nisso, não fora o fato de que ainda prevalece a percepção de que os excessos do setor, todos calcados em importantes inovações financeiras, foram um dos principais responsáveis pelo tombo da economia global de 2008. Estamos passando por um surto de amnésia coletiva, ou há algo de diferente desta vez? Os dois.

Menos de seis anos após a maior crise financeira do século, podemos estar mais uma vez presenciando mais um ciclo minskyano. Por um lado, como descreveu um relatório da revista “The Economist” da semana passada, o mundo das finanças vem apresentando inovações que envolvem três das suas funções básicas: criação e administração de meios de pagamentos; financiamento de distintas atividades (consumo, produção e investimento); e compra e venda de ativos financeiros e contratos derivados. Todas envolvem, de uma forma ou outra, inovações tecnológicas que permitem que empresas formalmente não financeiras (e em muitos casos não regulamentadas) atuem em atividades antes exclusivamente de bancos, comerciais e de investimentos, e mercados financeiros. E, mais uma vez, há motivos de alerta que deveriam nos deixar preocupados - e cito aqui um para cada uma destas inovações.

No primeiro caso, o dos sistemas de “pagamentos” eletrônicos, me parece impressionante a rapidez com que já absorvemos os escândalos envolvendo o chamado Bitcoin — criado a partir de um software desenvolvido por um misterioso gênio japonês (Satoshi Nakamoto), que produz uma moeda virtual cada vez que se decifra um código de segurança. Formulado inicialmente como forma de remunerar o aprimoramento da segurança na internet corporativa, o Bitcoin foi transformado em “moeda virtual” negociada entre os participantes de empresas privadas de compensação. O Bitcoin passou a ser aceito no pagamento de diversas transações, com total anonimato. Inicialmente era somente associado a atividades ilegais (drogas e lavagem de dinheiro), porém rapidamente passou a ser patrocinado por grandes empresas do comércio pela internet. Tomou notoriedade no último ano por três fenômenos: primeiramente, passou por um processo de valorização extremamente acelerada; em segundo lugar, duas de suas centrais de compensação foram vítimas de hacking e perderam algumas centenas de milhões em bitcoins; por fim, e como consequência do hacking mas também por mudanças regulatórias, seu valor despencou de novo. Apesar de tudo isso, muitos ainda continuam apostando no desenvolvimento do mercado de moedas virtuais.

No segundo caso, o de negociação direta de contratos financeiros, impressiona a notícia de que o valor nocional dos contratos derivativos negociados em balcão, que havia estabilizado entre 2008 e 2011 em US$ 600 trilhões, voltou a crescer rapidamente e atingiu cerca de US$ 700 trilhões em 2013. E isso ocorreu apesar das restrições que foram impostas à utilização e negociação desses ativos por grandes bancos de investimento nos Estados Unidos e Europa, e sob a memória fresca do papel que tais inovações tiveram na última crise.

Por fim, nos últimos anos vemos o crescimento do sistema de financiamento direto intermediado por instituições financeiras não bancárias — o sistema bancário “sombra”, sobre o qual já escrevemos nesta coluna. Apesar da pouca transparência e da falta de adequada regulação desse sistema, e de evidências de sobra da sua capacidade de gerar excesso de alavancagem e instabilidade financeira, ele cresce de vento em popa — especialmente em economias emergentes, notavelmente na China. E quem está colocando dinheiro nestas “sombras”? Primeiramente, os grandes investidores institucionais — fundos de pensão, companhias de seguro e também dos administradores de patrimônios pessoais — que se cansaram de esperar por uma mudança das taxas de juros próximas a zero, ou mesmo negativas. (De fato, há uma crescente percepção que esta possa ser a “nova normalidade” do mercado por mais alguns anos: isso porque, mesmo com a pequena melhoria da situação econômica nos Estados Unidos e na Europa, o que mais se escuta nos discursos dos presidentes dos bancos centrais é que a recuperação ainda é tímida e frágil).

Havia muito de economia política e psicologia social na “hipótese de fragilidade financeira” que Minsky apresentou em diversos livros (por exemplo, no mais recente “Stabilizing an Unstable Economy”). Para ele, os avanços no mundo muitas vezes são acompanhados de duas características: por um lado, inovações financeiras que têm a capacidade de simultaneamente aumentar o acesso ao financiamento e ampliar o bem-estar, ampliando o lobby por reduzir os limites impostos pela regulamentação. Por outro, a afluência crescente do mundo das finanças permite que se atraia para os seus rankings alguns dos melhores quadros, nas áreas de ciências sociais e naturais, das melhores universidades — o que aumentaria a “sensação” de que os erros (e as crises do passado) não se repetirão.

Não faltam inovações no mundo das finanças. E sempre que estas são apresentadas, não faltam alertas sobre os riscos potenciais de cada uma delas. Mas, no conjunto, não consigo deixar de ter a impressão de que os comentários críticos são cada vez menos incisivos, como se os riscos crescentes devessem ser aceitos naturalmente. Mais uma vez, ao que tudo indica, se mostra correta a previsão de Minsky de que o mundo das finanças não é só pródigo em inovações, mas também em promover amnésias coletivas.

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