Sobre dados e erros de lógica

A economia brasileira está andando de lado, e um dos principais problemas é a baixa taxa de investimento, que por sua vez se explica pelo crescimento excessivo do consumo das famílias e do governo e pela perda de confiança. Certo?

Por O Dia

Tenho dúvida sobre este argumento. Não só os dados não parecem dizer isso, como também ele é circular — o que pode levar a um debate de política equivocado, senão contraprodutivo.

Comecemos com os dados. Utilizando os do IBGE publicados nas séries históricas do Banco Central, produzi o gráfico abaixo. Ele apresenta as séries trimestrais do IBGE para os cinco principais determinantes da demanda agregada, tendo como base (100) o 1º semestre de 2003. Observe que o investimento tem tido, nos últimos dez anos, um comportamento de destaque: após um processo de queda que vinha desde 1997, ele se recupera e passa a crescer aceleradamente até 2008.

Como em outras economias, sofre uma inflexão com a crise, mas volta a crescer a partir do terceiro trimestre de 2009. Somente a partir do quarto trimestre de 2011 ele se retrai. Mas note bem: podemos dizer que o investimento é pouco em relação às necessidades do país — e isto ninguém discorda; mas o fato é que ele continua a ser mais elevado do que no início de 2003 e cresceu muito mais do que o consumo das famílias e do governo.

A inadequação do investimento requerido explica parcialmente outro resultado que chama a atenção no gráfico: o crescimento das importações. Isto denota a perda de competividade, especialmente do nosso setor manufatureiro — já que o de serviços depende do crescimento da renda e do consumo das famílias; e o agronegócio, especialmente o exportador, ainda vai muito bem. Ou seja, parte importante do nosso crescimento (potencial) está “vazando” para o exterior — não só reprimindo a demanda atual, como também gerando desestímulos ao investimento em capacidade produtiva.

Há pelo menos duas variáveis que afetam nossa competividade. No médio prazo, o custo de produção tem evoluído pela valorização do real e pelo aumento dos salários reais dos trabalhadores superior à produtividade do trabalho. Já a sobrevalorização do Real parece ter saído do debate, pelo menos daqueles que acham que a inflação é um problema de demanda — apesar de que parte significativa da inflação se justifique por choques de oferta (por exemplo, o impacto das secas sobre os preços de alimentos). São os mesmo que apoiam um ajuste macroeconômico ainda mais duro, que, como já argumentamos, pode gerar menos produção, mais desemprego e maior inadimplência — o que dificilmente ajudaria a aumentar o investimento e resolver nosso problema de competitividade no médio prazo.

Não há mágica para aumentar a produtividade do trabalho: ela requer mais investimento em gente, em educação, em formação profissional e oportunidades — o que já está acontecendo através de programas como o Pronatec e o maior comprometimento do orçamento da União com a educação. Alguns mais apressados sugerem um congelamento salarial como solução para mitigar o problema do aumento do custo de produção.

Essa solução, em um país com tanta desigualdade, é moralmente controversa, mas poderia ser tecnicamente sólida, não fora por um detalhe: o fato de que provavelmente reduziria ainda mais os incentivos ao investimento, agravando o problema de perda de dinâmica. Se a ideia é gerar maior crescimento, essa proposta não faz o menor sentido.

No médio prazo, além do investimento em gente, a competitividade depende de investimentos em capacidade produtiva, infraestrutura e logística. Para uma grande parte dos analistas, esses investimentos não disparam por falta de “confiança” e por falta de poupança interna.

Aqui os problemas de lógica se tornam ainda mais graves. Todos queremos um país aonde o empresariado possa atuar com liberdade, regras de jogos bem definidas e sem muitas intervenções — ou seja, com um melhor ambiente de negócios.

Mas é difícil manter que este seja o principal empecilho ao aumento do investimento: por um lado, com toda a “perda de confiança” que se imputa ao governo nos últimos anos, os dados indicam que o investimento se mantém em patamar superior a toda a série desde 1991; por outro lado, países que muitas vezes são citados como exemplos a serem seguidos de altos investimento têm níveis de intervenção estatal, incluindo mudanças discricionárias das regras do jogo, indubitavelmente muito superiores ao que ocorre no Brasil.

O problema pode ser a baixa poupança doméstica, argumentam alguns — e a solução deve passar pela redução do consumo das famílias e do governo. Mas esta visão também desafia a lógica e os fatos. Isto porque a queda do consumo das famílias e do governo somente criaria incentivos para a expansão do investimento em duas condições: se esta retração de demanda não afetasse as expectativas dos empresários sobre a sua própria demanda futura; ou se a poupança adicional resultasse em ampliação e barateamento do custo de capital.

A primeira condição pode até ocorrer em uma pequena economia exportadora, em momentos de expansão do comércio internacional. Neste caso pode-se imaginar que um empresário invista mais em capacidade produtiva ou em rodovias se não há expectativas de que o consumo esteja em queda. Mas em uma economia continental, como a brasileira ou a americana, onde o consumo doméstico tem um papel tão importante no PIB, o argumento parece não se sustentar — especialmente neste momento em que o comércio internacional está andando de lado.

O argumento de que a poupança (ou a retração do consumo) gera uma expansão na oferta de recursos mais barato para o investimento tampouco me parece aplicável ao nosso caso. Ele se adequa mais a economias com mercado de capitais amplos e predominantes, no qual parte significativa dos investimentos passa pela emissão de títulos financeiros de longo prazo. Nesses países, um aumento de recursos nos mercados de capitais poder aumentar os preços de ativos financeiros e derrubar as taxas de juro de longo prazo. Mas mesmo em países com mercados financeiros bem mais desenvolvidos, este não parece o caso hoje em dia: haja vista que a maioria da OCDE tem mantido taxas de juros reais negativas, sem conseguir fazer com que o investimento se recupere significativamente.

Para a maioria das economias, desenvolvidas e em desenvolvimento, a maior parte do financiamento dos investimentos advém de lucros retidos ou diretamente de investidores institucionais. Por exemplo, nas contas nacionais chinesas, as altas taxas de poupança nada mais que refletem os excedentes criados pela alta rentabilidade das empresas (ou seja, poupança corporativa), que são transformados em investimento em função das expectativas de crescimento das exportações e do consumo doméstico — o que explica porque as autoridades chinesas, face à perda de dinâmica do comércio internacional, estão investindo tanto em aumentar o consumo das famílias.

Para superarmos esse extraordinário desafio do crescimento, um maior nível de investimento é chave — porque gera demanda agregada ao mesmo tempo em que cria condições de ampliação futura de produtividade e competividade. E não há dúvida de que, para isso, são fundamentais tanto uma maior sintonia entre governo e setor privado, quanto o desenvolvimento de mecanismos adequados de financiamento do investimento. Mas não será com argumentos que desafiam os dados e a lógica que vamos avançar.

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