Por bruno.dutra

O personagem era um triste oportunista que buscava, em última hora, encontrar alguma afinidade com a candidata Marina Silva. O sórdido representante fictício, entretanto, não encontrava em seus “arquivos pessoais” nenhuma contribuição à economia verde e ao debate ecológico. Estava “liquidado!”.

Evidentemente, muitas pessoas que acompanham os debates eleitorais e como funcionam as instituições financeiras internacionais ficaram confusas — por pelo menos três razões.

Em primeiro lugar, as bandeiras da sustentabilidade ecológica e da economia verde não são monopólio de uma só candidatura. De fato, o Brasil é reconhecido pela comunidade internacional por ter conseguido, nos últimos 12 anos, conciliar sua enorme contribuição à preservação ambiental com um processo acelerado de redução da pobreza e da desigualdade.

Afinal, por um lado, e independentemente da medida utilizada, a taxa de extrema pobreza tem caído sistematicamente desde 2003 e estamos perto da eliminação dessa praga social; além disso, o coeficiente de Gini, que mede a desigualdade de renda, também em queda acelerada, atingiu em 2012 o patamar mais baixo de que se tem notícia no Brasil (de 0,530). Para esses resultados, um verdadeiro processo civilizatório que estamos vivenciando, certamente colaborou o dinamismo do mercado de trabalho: só no governo Dilma, foram criados, em termos líquidos, mais de 3,6 milhões de postos de trabalho, de acordo com o IBGE, que estima o desemprego aberto em menos de 5% atualmente.

Por outro lado, do ponto de vista da sustentabilidade ambiental, nosso bom desempenho é igualmente notório. Por exemplo, um relatório do Banco Mundial, a ser divulgado em breve, menciona o Brasil como exemplo de sucesso no controle do desmatamento e da degradação florestal. De fato, os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) revelam que, em 2013, a área desmatada na Amazônia Legal (5.891 km2), embora maior que a de 2012, foi ainda muito inferior à dos anos anteriores.

Há dez anos, o desmatamento na Amazônia registrava áreas de 10 mil km² anuais. Entre 2007 e 2010, a média da área desmatada foi de 9.756 km2; já entre 2011 e 2013, foi de 5.626 km2, ou seja, queda de 42% em relação ao período anterior. Não por outra razão, nos últimos 12 anos, nos tornamos referências para o Banco Mundial e para o mundo na luta contra a pobreza e a desigualdade com sustentabilidade.

Em segundo lugar, o personagem fictício de PNB não se coaduna com nenhum dos representantes do Brasil nos organismos multilaterais em Washington que conheci nestes últimos dez anos. Em geral, somos escolhidos tanto pelo nosso perfil profissional e conhecimento profundo sobre os temas das instituições em que atuamos, quanto pela nossa capacidade de defender o projeto político do país que representamos — não só porque acreditamos nele, mas principalmente porque dele nos orgulhamos. E é pelo nosso projeto de ser um de um Brasil mais justo e sustentável que ganhamos o respeito e somos constantemente elogiados por instituições como o Banco Mundial. Não é por outra razão que frequentemente nos posicionamos como representantes do Brasil sobre o tema “economia verde” — eu mesmo escrevi alguns artigos, inclusive nesta coluna, e dei algumas entrevistas sobre a questão da sustentabilidade.

Em terceiro lugar, quando PNB diz que o triste personagem “é um sujeito eminentemente tranquilo e cordial, não se exalta nem se agita”, parece estar criticando essas qualidades diplomáticas. De fato, ele mesmo sabe que no mundo das negociações multilaterais, é preciso, sim, ter firmeza, mas sem jamais perder a tranquilidade e a cordialidade. Eu só adicionaria à lista um terceiro requisito para ser um bom representante: discrição. Afinal, o nosso objetivo aqui é promover os interesses do Brasil, e não gerar holofotes sobre nós mesmos.

Somente com essas quatro qualidades, e com a liderança do ministro Guido Mantega, foi possível lograr importantes conquistas para o Brasil nesses últimos anos — como, por exemplo, a ampliação do limite de crédito do Banco Mundial de US$ 14,5 bilhões em 2007, para US$ 20 bilhões atualmente, para o Brasil, e um aumento do nosso poder de voto na reforma de voz de 2008. De quebra, como já mencionei, consolidamos a imagem de liderança global em temas de desenvolvimento inclusivo e sustentabilidade. Tudo com muita firmeza, tranquilidade, cordialidade e discrição.

Quando liguei para PNB, com quem eu não estive há quase dois meses, para perguntar-lhe quem era o personagem a quem ele se referia, o próprio autor admitiu que era simplesmente um “personagem de ficção” criado por ele para aquele artigo. Fiquei aliviado: não fosse este o caso, não só estaria “liquidado” o pusilânime personagem criado pela criativíssima imaginação de PNB. O Brasil também estaria.

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