Por bruno.dutra

Mas o sentimento expresso no debate é claro: a população quer soluções que resguardem e ampliem as conquistas sociais, ampliem a qualidade e acesso a bens públicos (inclusive melhor mobilidade urbana e educação) e mantenham a inflação em queda. Responder a esse desafio vai requerer muita inovação, escutar ideias de distintos campos e muita habilidade política.

Ninguém pode ignorar os fatos: apesar de termos as menores taxas de desemprego do mundo (o que é um importante trunfo!), a taxa de investimento está aquém das necessidades, a produtividade e competitividade não acompanharam o processo de inclusão socioeconômica, e a inflação tem-se mantido teimosamente próxima ao topo da meta. O setor industrial precisa recuperar-se rapidamente, e enfrentar o desafio das importações. Se os dados falam por si só, a interpretação do que ocorreu não é tão elementar. Para alguns economistas, esses dados representam o final de um ciclo de desequilíbrios entre oferta e demanda, de consumo e investimento. Para eles, esta foi uma década de irresponsabilidade fiscal, e de políticas que incentivaram desmedidamente o acesso ao crédito — especialmente o crédito público.

Segundo esses analistas, estas políticas, por sua vez, elevaram o consumo familiar para além das possibilidades do setor real e dos ganhos de produtividade. Para reiniciar um novo ciclo de investimentos altos e de consumo menor, recomendam reversão imediata de tais incentivos — inclusive, e especialmente, a retração dos bancos públicos — e a reafirmação do compromisso com uma política centrada no combate à inflação e na postura fiscal conservadora, além de reformas voltadas a reduzir a carga tributária e melhorar o ambiente de negócios.

A julgar pelo que eu tenho lido, a maioria dos que favorecem esse caminho acreditam que ajustes “de arrumação”, mesmo se gerassem recessão e ampliação do desemprego no curto prazo, fariam com que o desenvolvimento pudesse retornar ao bom caminho. Parecem, entretanto, ignorar diversos fatores. Por exemplo: que o comércio internacional está andando de lado, que dificilmente o investimento se recuperará num ambiente de retração da demanda doméstica, e que a retração do investimento público não ajuda para uma redução do hiato de infraestrutura e logística.

É importante notar que esse caminho foi seguido por algumas economias europeias, e resultou tragicamente em recessões — com aumento expressivo do desemprego (especialmente entre jovens) e deterioração da condição dos negócios domésticos. Nada aponta que até agora, nesta crise, esses ajustes tenham “arrumado” alguma coisa, ou provocado aumentos substantivos da competitividade dessas economias.

Para outros analistas, como este colunista, o que ocorreu nesta década foi um processo intenso de inclusão socioeconômica para retirar o país de uma armadilha de desigualdade e pobreza, e de baixa produtividade do trabalhador. Esta armadilha pode ser descrita da seguinte forma: filhos da pobreza em geral terminam tanto ou mais pobres quanto seus pais, que não podem oferecer-lhes nutrição, atendimento médico ou educação adequados. Mas ao romper com essa armadilha, o desenvolvimento brasileiro entrou em um inevitável período de desequilíbrios estruturais. 

Por exemplo, as deficiências de infraestrutura e logística, de mobilidade urbana e de educação, frutos dos baixíssimos investimentos das décadas de 80 e 90, eram uma realidade conhecida; porém, a demanda por esses bens públicos eram limitados pelo simples fato de que somente uma pequena minoria desfrutava das estradas e dos aeroportos — seja diretamente como usuários, seja indiretamente como consumidores de bens e serviços. Por outro lado, a economia, dominada por um amplo setor informal com trabalhadores com baixa remuneração e poucos direitos, podia conviver tranquilamente com a baixa produtividade de significativa parte de sua população.

No mundo ideal, um processo de inclusão socioeconômico da magnitude que se observou no Brasil deveria requerer um equilíbrio entre ampliação de consumo, investimentos, produtividade e competitividade. Mas se na China, onde a planificação estatal ainda é fundamental, esse equilíbrio não foi encontrado, como poderíamos esperar o mesmo em uma economia de mercado e democrática como no Brasil? Portanto, não me parece minimamente estranho que o desenvolvimento inclusivo brasileiro na última década tenha sido desequilibrado. Não fora o ambiente externo favorável, talvez o processo de redução da pobreza e desigualdade não pudesse ter sido tão intenso — posto que geraria restrições de balanço de pagamentos incontornáveis.

Mas me parece absolutamente adequado que se tenha aproveitado o cenário global mais amigável para rompermos com a armadilha de pobreza e subdesenvolvimento que vivíamos — assim como no passado aproveitou-se de um ambiente externo favorável para a estabilização no Plano Real. A partir da crise de 2009, o quadro externo se tornou completamente distinto: o comércio internacional entrou em colapso, recuperou-se um pouco e depois de 2012 passou a andar de lado; os fluxos de capital, frente às políticas monetárias não convencionais das economias desenvolvidas, passaram a gerar fortes pressões pela valorização do câmbio. Além disso, as pressões inflacionarias começaram a preocupar.

Não há duvida de que, neste quadro, ajustes são necessários. Mas, se o último diagnóstico estiver correto, teremos de fazer ajuste com “a bicicleta” andando, passando por muitos obstáculos. Os ajustes exigirão conhecimento e habilidades que vão muito além de livros textos e das receitas habituais — de uma ou outra escola da ciência social. São ajustes que requereram inovações coletivas, que levem em conta muitas das reflexões realizadas ao longo do debate eleitoral e um alinhamento entre estratégias do governo, do setor privado e dos trabalhadores. Parece-me que este foi o sentido do primeiro discurso da presidenta-eleita: uma preparação para enfrentar os desafios tão significativos para todos os brasileiros.

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