Por bruno.dutra
Publicado 04/11/2014 10:24 | Atualizado 04/11/2014 11:20

Desde o início da crise atual, a cada ano renovam-se as esperanças no surgimento de alguma locomotiva — e as bolas da vez agora são os Estados Unidos e, em menor medida, a Inglaterra. Quão críveis são essas expectativas?

Até recentemente, eram as economias emergentes que mais animavam os analistas. Alguns apostavam, inclusive, num “descolamento” do crescimento de emergentes — como a China — dos destinos das economias desenvolvidas. Com um mercado interno pujante, necessidades significativas de insumos para suas indústrias domésticas e capacidade de gerar inovações ao longo do processo, parecia que elas poderiam assumir a frente do comboio de carros. Essa liderança não só se dava no mercado de commodities, mas também na demanda por bens de capital sofisticados. Todos pareciam ganhar com o “descolamento” da China e demais emergentes.

Não mais do que três anos atrás, muitas análises já começavam a rever tais expectativas — especialmente porque as taxas de crescimento das exportações chinesas continuaram a apresentar tendência declinante. Agora a China, todos insistem em afirmar, passa por um momento de incertezas, e a maioria dos analistas já aposta na desaceleração permanente do crescimento de dois dígitos para algo em torno de 6% a 7%. Enquanto isso, as análises mais pessimistas incluem o estouro da bolha imobiliária doméstica e uma retração abrupta da demanda interna que poderiam levar a um pouso muito mais traumático para a China — e para o mundo.

A Zona do Euro, a meu ver, tem estado em maus lençóis desde o começo da crise. A tentativa inicial de estabelecer políticas contracíclicas foi abandonada aos primeiros sinais de crescimento acelerado das dívidas nacionais. Liderada pela austera Alemanha, a única economia grande europeia que desfrutava de robusto crescimento, a zona adotou políticas de ajuste mais rapidamente do que mesmo o FMI recomendara. Esse afã de austeridade só complicou a vida das economias regionais — especialmente das periféricas, que dependiam significativamente da reativação do comércio intrarregional. No momento, com a retração das exportações de bens de capital para a Ásia — especialmente para a China — mesmo a Alemanha parece estar sofrendo do mal da baixa dinâmica.

A Inglaterra, por sua vez, tem tido o melhor desempenho econômico dos últimos seis anos (com um crescimento esperado superior a 3% este ano), liderado especialmente pelo setor de serviços — incluindo os ligados à City, ou seja, a serviços financeiros. Sabemos que o setor financeiro teve uma recuperação espetacular, especialmente se considerarmos que ele foi o olho do furacão que começou em 2008. Mas dificilmente podemos imaginar que a sua expansão possa ser o centro dinâmico da recuperação da demanda, da produção e do emprego em qualquer país — e muito menos para a economia global.

E os Estados Unidos? Este, sim, tem apresentado sinais de uma recuperação, com um crescimento anualizado do 3º trimestre (3,5%) inferior ao do segundo (4,6%), mas que superou as expectativas do próprio governo. O crescimento parece ser mais robusto porque foi resultado de desempenhos positivos em uma gama significativa da atividade doméstica — de consumo pessoal de bens duráveis ao setor imobiliário e de construção, investimentos em equipamentos (7,2%!) e uma generosa expansão dos gastos públicos — assim como bons resultados nas exportações (7,8%) e queda nas importações.

Mas, os bons ventos não parecem poder resistir à aproximação do inverno, que promete trazer um dólar mais valorizado — o que afetaria a competitividade e as exportações americanas — além da perda, por parte do Partido Democrata, da maioria do Congresso — o que poderia diminuir ainda mais qualquer tentativa de implementar políticas de crescimento.

Caso os Estados Unidos mais uma vez decepcionem, será difícil manter a ideia de que a economia mundial é um trem em busca de uma locomotiva de crescimento. O que parece mais certo é que a economia mundial, antes da crise, estava consolidando uma situação de multipolaridade e interdependência muito diferente do que se observava a 30 anos atrás — quando prevalecia um sistema com um bloco tendo o papel claro de locomotiva.

Hoje a nova economia global se parece mais com um automóvel, em que o bom funcionamento de um conjunto de pistões é essencial para um contínuo bom desempenho do todo. E o mais provável é que, apesar das episódicas melhoras de desempenho de alguns dos pistões, a crise de 2008 tenha deixado a economia mundial batendo pino por um longo período.

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