Obama e o estado da desunião

Em momentos como este, de enorme polarização e irracionalidade política, cabe ao líder da nação continuar sinalizando para os caminhos de uma prosperidade sólida

Por O Dia

O chamado State of the Union Address é uma instituição importantíssima da democracia dos Estados Unidos. Nesse discurso anual frente a todo o Congresso americano, o líder do Executivo presta contas das suas realizações, aponta para os principais desafios para o futuro e apresenta sua visão de como superá-los. Neste ano, Barack Obama chamou a atenção para os riscos da desigualdade crescente nos EUA, e da importância de gerar um crescimento inclusivo, com base na oportunidade para todos e investimentos transformadores. A meu ver, o discurso é muito bem-vindo e absolutamente adequado.

Barack Obama foi eleito com base em uma plataforma de governo que relançava um dos principais ideais dos EUA no pós-guerra: a de que a fortaleza da economia e da nação advém de um sistema de oportunidades para todos, em uma “economia da classe média” (termo criado por Obama na última semana) onde cada geração pode se dar o luxo de esperar para seus filhos mais oportunidades à educação, ao bem-estar físico e financeiro e a uma aposentadoria decente. Como sempre ocorre, há um pouco de exagero nessa visão, já que, nos anos áureos desta fase, manteve-se uma odiosa exclusão para negros, mulheres e imigrantes. Para grande parte das pessoas, entretanto, passou a valer a máxima de que “só o trabalho enriquece” — um círculo virtuoso no qual a busca de melhor qualidade de vida passava inexoravelmente por ampliar o conhecimento pessoal, e em que a melhoria do capital humano se tornava o pilar para uma nova rodada de crescimento.

Nessa economia da classe média coube ao Estado muitas vezes apresentar-se como farol do desenvolvimento, iluminando as fronteiras do conhecimento com programas desafiadores — “colocar um homem na lua”, “vencer a guerra fria” etc. — e gerando condições de financiamento e acesso a condições para o florescimento do espírito empresarial. Foi nesta fase que surgiram algumas das principais inovações que constituem hoje, por exemplo, as bases da moderna indústria automotiva e de aviação, além dos pilares de todo o mundo cibernético da informação e da comunicação.

A partir dos anos 60, a nação trilhou caminhos distintos. Alguns foram bons (apesar de ainda incompletos), como, por exemplo, a emancipação das mulheres na cidadania; e a consolidação das principais conquistas da luta dos direitos civis, dos negros e outras minorias. Outros foram desastrosos, como o desmonte das bases da “economia da classe média”. De acordo com a visão consolidada nos anos 70, a busca desenfreada por maior riqueza pessoal geraria as condições para a melhoria de vida da nação assalariada. Inicia-se com o presidente Reagan a visão de que o papel do Estado era “sair da frente” dessa “elite empresarial” — por exemplo, reduzindo seus impostos, os entraves regulatórios que supostamente impediam sua capacidade criativa e obstruindo qualquer elevação sustentada dos salários mínimos.

Neste período, os EUA viram o surgimento de uma prosperidade distinta daquela do imediato pós-guerra. Livre das amarras regulatórias, o sistema financeiro expandiu com enorme rapidez, tornando-se a força econômica e política global que vemos aí. Na busca de inovações lucrativas, esse mesmo sistema abandonou critérios mais sólidos de administração de risco, e criou um sistema de financiamento ao setor imobiliário que demonstrou ser um castelo de cartas. E essa marcha da insensatez financeira permitiu um fenômeno político: apesar da estagnação da renda média da classe trabalhadora, e de um brutal aumento da desigualdade, havia a sensação de prosperidade compartilhada, já que quase toda a “classe média” podia desfrutar da orgia consumista e da valorização patrimonial gerada pelo boom do mercado financeiro.

O castelo de cartas se desmontou algumas vezes até entrar em colapso em 2008, no momento em que a nação americana comemorava um feito histórico: a ascensão do primeiro negro à posição de presidente da União, que trazia consigo a convicção da necessidade de relançar as bases da dinâmica econômica e do desenvolvimento — a partir da refundação da “economia da classe média”, e da criação de uma matriz energética e de novas formas da produção e consumo mais condizentes com os desafios (especialmente os ditados pela crise climática atual). Essa nova visão envolvia dar segurança de saúde a todos, ampliar o acesso gratuito à educação universitária, investir fortemente no acesso universal à internet, implementar uma política de valorização do salário mínimo, e assim por diante. Também conclamava a nação a dar um salto em educação, conhecimento e tecnologia, a partir de um contexto de investimentos voltados à sustentabilidade ambiental (a chamada economia verde). Não houve, entretanto, nem uma breve lua de mel: foram até agora seis anos de uma constante luta do, e contra, o presidente Barack Obama. Cada avanço, como, por exemplo, o do lançamento de um sistema de saúde publica universal (o chamado Obamacare), foi recebido com pedras pela raivosa oposição — antes e depois da aprovação de medidas básicas.

Nesse estado de desunião, o presidente Obama pode, ao menos, entregar à nação uma recuperação econômica com criação recorde de empregos. Trata-se de um trunfo que, frente ao estado catatônico de grande parte da economia global, deve ser aplaudido. Mas, para possível tristeza de Obama, ele não foi resultado da sua “nova economia da classe média”, que nunca se lhes permitiu implementar; mas, sim, de outras políticas — e, de uma certa forma, da sorte. Obama contou, por exemplo, com dois presidentes de banco central (Bernanke e Yellen) que apostaram fortemente em uma política de juros negativos para levantar a economia. Em segundo lugar, porque essa política tem a “simpatia” de uma importante parte do bloco do 1%: os banqueiros, que tiveram seus balanços saneados pela injeção de liquidez diretamente nas suas veias; e os grandes investidores no mercado financeiro, que aplaudiram a valorização das suas fortunas, grande parte das quais está na forma de ações. (Não me parece ser por outra razão que, apesar da forte oposição a uma política fiscal anticíclica, os republicanos não apresentaram nenhuma resistência à política monetária mais expansionista da história. Aliás, para aqueles que acham que os EUA estão saindo desta crise com uma política de austeridade, recomendo fortemente olhar a expansão meteórica do balanço do banco central, o Fed — assunto de outros artigos desta coluna).

Ninguém espera mais que Obama possa, nos próximos dois anos, mudar esse estado de desunião. Mas não se pode, por isso, interpretar o seu State of the Union Address como uma peça inútil de retórica. Em momentos como este, de enorme polarização e irracionalidade política, cabe ao líder da nação continuar sinalizando para os caminhos de uma prosperidade sólida — que no caso de uma economia continental e com recursos, como a americana, só ocorre quando ela é compartilhada e quando o crescimento de cada qual seja as bases para crescimento da nação. Essa visão começa, sim, com reconstruir a economia da classe média, e se complementa com investimentos voltados para renovar e tornar “mais verde” a infraestrutura, a logística e a produção de energia; com educação e saúde para todos; e com uma política tecnológica e científica que auxilie na geração do salto que o país necessita na nova economia do conhecimento. Acho que parte desse programa pode ser implementado. Mas a simples sinalização do caminho que deve ser trilhado já será um importante legado de Obama para os próximos mandatos presidenciais — que, quem sabe, talvez sejam inaugurados por mais um avanço histórico importante para esta nação: a ascensão de uma mulher à presidência.

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