O FED e o estado econômico da união

A baixa taxa de desemprego se deve em parte à redução da participação no mercado de trabalho. Além disso, a maioria dos postos ofertados vem de setores que oferecem baixas remunerações

Por O Dia

Nos últimos meses foram muitas as vezes que o mercado demonstrou acreditar numa mudança breve na política monetária norte-americana. Afinal, dizia-se, se há crescimento e baixo desemprego, não faz sentido em manter tão baixas as taxas de juros. Tudo indica que o banco central daqui, o Fed, não compartilha desta visão. Como já discutimos nesta coluna, no seu discurso ao Congresso no começo do ano, o presidente Obama declarou que a crise era página virada para os Estados Unidos, e que era sólido o “estado econômico da união”. É fácil de entender porque o fez: por um lado, ele só tem dois anos mais de mandato e quer mostrar que suas políticas estavam certas. Por outro, a economia aqui passa, realmente, pelo melhor período desde o início desta Grande Recessão em 2009: apesar do crescimento “decepcionante” de 2,6% do último trimestre de 2014, foram excelentes os últimos dois números — 4,6% no segundo trimestre e 5,0% no terceiro. E com isto, a taxa de desemprego vem caindo, e está agora em um nível inferior ao anterior a crise (5,6%).

Paradoxalmente, no mesmo discurso, Obama conclamou o Congresso a apoiá-lo em uma mudança significativa da política econômica, com aumentos dos impostos sobre os mais ricos, e redução de tributos e outros incentivos para a classe média — uma proposta que contradiz, ou indica pouca convicção no bom momento econômico da nação. E não é mesmo sólida a situação: apesar da expansão significativa da demanda por trabalho, a maioria dos postos ofertados vem de setores que oferecem baixas remunerações e quase nenhum benefício trabalhista — como o de serviços profissionais e de construção. O resultado disto é que mantém-se extremamente baixo o salário real médio — que chegou a cair em dezembro, apesar dos 240 mil empregos oferecidos somente naquele mês. Por sua vez, a baixa taxa de desemprego se deve em grande parte à redução da participação no mercado de trabalho — que se encontra nos menores níveis nos últimos 36 anos (62,7%). Tudo isto reflete o calcanhar de Aquiles desta recuperação: a qualidade e remuneração dos empregos criados, que, por serem baixas, acabam gerando a possibilidade de uma demanda futura fraca e de deflação de preços.

Ha também muitos fatores externos que causam preocupação. Por exemplo, o aumento dos riscos de estagnação nas economias avançadas da OCDE; o crescimentos dos riscos geopolíticos na Europa e no Oriente Médio; e a desaceleração das principais economias “emergentes”. A situação é tal que muitos, mais pessimistas, temem que a recuperação por aqui acabe mesmo na situação trágica de grande parte da Europa e do Japão: estagnação com risco de deflação. E, em uma economia em que o nível de endividamento privado — por exemplo, de proprietários de casa, estudantes universitários —, esta combinação pode ser fatal.

Nem mesmo uma política monetária para lá de expansionista pode sustentar a retomada se permanecem imutáveis estes fatores internos e externos. Nesta situação, o ideal seria, como vem indicando o presidente Obama, promover o alívio financeiro da classe média, com uma fórmula básica bem conhecida no Brasil: uma combinação de uma política de valorização do salário mínimo e outras políticas de transferência — como por exemplo, reduzir os custos de educação e de saúde para a grande maioria dos americanos. Infelizmente, o presidente Obama sabe que, para isto, não pode contar com um Congresso dominado por republicanos — não só porque estes se opõem a grande parte de programas sociais propostos, mas porque não querem nem ouvir falar da única forma de promover, de forma fiscalmente responsável, as políticas propostas pelo líder do executivo: aumentar os impostos para os mais ricos.

No meio tempo, a peça de resistência continua sendo o Fed. Não surpreende, assim, que, conforme demonstrou a pesquisa recente da Reuters, haja revertido o sentimento da maioria dos que operam no mercado de dívida pública daqui — que agora aposta que o banco central norte-americano não aumentará as suas taxas até pelo menos o final do ano. A meu ver, a minoria que ainda acredita na elevação dos juros em junho pode estar esquecendo que, além da estabilidade de preços, o Fed possui outros dois objetivos: manter “modestas” as taxas de juros de longo prazo e promover uma taxa “máxima” de emprego. Enquanto estes importantes indicadores do estado econômico da nação não melhorarem, creio, o Fed dificilmente mudará sua política.

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