Por diana.dantas

É muito comum ler-se que a crise global está arrefecendo, e que as economias emergentes poderiam promover uma retomada acelerada se adotassem medidas e receituários, que variam de acordo com a persuasão de quem as propõe. Este é o caso por exemplo de uma edição recente da revista inglesa “The Economist”, que tem como ilustração de capa um elefante turbinado — uma alusão ao suposto impacto que boas políticas e reformas têm tido para a recuperação da economia da Índia. Minha leitura (do caso indiano e de outros casos) é distinta: creio que crise global continua um mar de tempestade, e que a retomada do crescimento aqui e acolá se deve mais a circunstâncias do que ao receituário adotado.

Comecemos com a capa da revista. Na Índia, a conta petróleo representa cerca de um terço do total da importações nacionais. Os preços dos combustíveis ainda são fortemente subsidiados. Qualquer oscilação do preço dessa commodity tem impacto direto sobre alguns dos principais indicadores macroeconômicos. Por exemplo, a queda do preço do petróleo em mais de 50% em menos de um ano permitiu à Índia uma simultânea redução do déficit comercial e da inflação, um aumento da competitividade, da produção e da arrecadação de tributos. Por gerar uma enorme queda dos custos dos subsídios aos combustíveis, de quebra melhorou, e muito, a situação fiscal do país. Sem pressões sobre preços, apesar do crescimento da demanda interna, as autoridades monetárias decidiram continuar a reduzir as taxas de juros, agora em cerca de 7% — para evitar “a deflação de preços”, conforme mencionou o presidente do Banco Central indiano Raghuram G. Rajan. Ou seja, gerou-se um ciclo virtuoso a partir de oscilações de um preço completamente externo a qualquer decisão de política dentro do país. Uma questão de sorte mesmo.

Pode causar algum constrangimento o fato de uma recuperação de uma economia emergente ser mais fruto de sorte do que de técnica. Afinal, a maioria dos economistas, de distintas persuasões, prefere crer que há uma receita de bolo para enfrentar crises e alcançar a prosperidade no longo prazo. Mas bastaria olhar a história econômica recente de algumas entre as 20 maiores economias do mundo (G-20) para entender-se que isso não existe.

Tomemos o caso dos Estados Unidos. Depois de anos de produção em queda e desemprego em alta, e frente à obstrução à política fiscal anticíclica de Obama, a economia parece recuperar-se. Por que? Creio que devido à mescla de, pelo menos, três fatores: o “privilégio único” de ter o dólar como moeda tem permitido ao banco central, o Fed, implementar, sem nenhum constrangimento, uma política super-expansionista; segundo, a expansão dos investimentos e da produção de óleo de xisto, uma decisão primordialmente do setor privado e, portanto, não diretamente relacionada à política econômica; e, mais recentemente, pela queda do preço do petróleo, que aumentou o poder de compra da empobrecida classe trabalhadora.

Diga-se de passagem que a recuperação americana ainda não esta garantida por que não se sabe ainda se o crescimento da demanda agregada é sustentável. Por um lado, muitos dos postos de trabalho recém-criados são de contratos curtos e de baixa remuneração baixa, o que restringe o poder de compra da grande classe média. Muito em função disso, o mercado financeiro continua a se recusar a expandir o crédito como outrora fazia. Por outro, o dólar mais forte ameaça reverter os melhores resultados recentes da balança comercial e anular os bons efeitos gerados pelo petróleo mais barato. Por essas razões, muitos temem que a recuperação morra na praia — inclusive o Fed, que se mostra reticente em reverter a sua atual política. Ou seja, mesmo para o poderoso EUA, a sorte tem jogado — e continuara a jogar — um papel fundamental para a recuperação.

No outro extremo estão os membros da União Europeia (UE) que, liderados pela Alemanha, procuraram enfrentar a crise com algumas políticas, digamos, mais convencionais, de austeridade e reformas. Se até recentemente apostava-se que este receituário poderia dar certo, a sorte não tem sorrido para aquela parte do mundo. Assustados com as altas taxas de desemprego, e a crescente instabilidade política interna, há algum tempo os europeus vinham olhando com um mistura de ciúmes e ressentimento o que fazia o Fed no outro lado do Atlantico. No final do ano passado, e começo deste ano, abriram as porteiras, permitindo ao Banco Central Europeu (BCE) implementar um programa de compra de títulos financeiros muito similar ao que os colegas americanos e japoneses vinham fazem. Agora, alguns sinais de recuperação aparecem aqui e acolá, mas o desemprego (especialmente entre os jovens na “periferia europeia”) continua altíssimo. E só aumenta o temor que mesmo essa situação se deteriore, agravada (e agravando) as tensões políticas dentro da UE. Por mais que adotem o receituário que salvou os Estados Unidos da crise, a Europa sabe que precisa de muita sorte para não cair em um cenário de estagnação secular.

A China, alguns diriam, não precisa de sorte: possui quase US$ 4 trilhões em reservas, e uma capacidade política de mudar sua política macro incomparável com outras economias de mercado com sistemas políticos mais abertos. Agora, o governo chinês aponta a possibilidade de reformas para garantir o crescimento no futuro, mas isso é ainda um capítulo a ser totalmente aberto — e tido como incerto mesmo pelos economistas mais convencidos desta rota. Pelo sim e pelo não, o governo tem tomado medidas de estímulo monetário e creditício que, não surpreendentemente, tornam difícil entender o receituário seguido — se algum há. Tudo isso pode fracassar — por exemplo, caso a recuperação global não se sustente, ou se estourar a atual bolha dos mercados financeiros (e especialmente imobiliários) naquele país. Ou seja, vai também depender da sorte.

O Brasil não deixa de estar vivendo uma situação excepcional — por razões absolutamente distintas das economias citadas acima. Apesar de ter reservas tão elevadas quanto a Índia, um setor produtivo sólido, um mercado interno pujante e fundamentos macroeconômicos bons, vive um momento peculiar de inflação alta e dificuldades geradas pelo ambiente político complexo. Nesse quadro, o governo tem implementado correções visando evitar que, frente a um mar de ondas altas e um raio de manobra estreito, não acabemos por bater contra alguns dos diversos obstáculos que se colocam à frente — entre eles, a possibilidade de redução do rating. Nada indica que, com algumas importantes reformas, e melhorando algumas das variáveis externas e a situação política interna, não possamos brevemente voltar a um circulo virtuoso de crescimento inclusivo.

Mais importante do que procurar em exemplos externos receituários, ou contar simplesmente com a sorte, talvez o essencial agora seja manter o olho na bússola e navegar com segurança — e esperar esta tempestade passar.

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