Por diana.dantas

O Brasil passa por um momento complexo, mas, creio, também extremamente rico. Ao explicar o momento no exterior, muitas vezes testemunhei por aqui análises superficiais e excessivamente pessimistas sobre nosso país. Para evitar que o estrangeiro saia de sua apresentação ou conversa com a impressão e de que somos um país que não acredita na sua capacidade de superação e no seu futuro, sugiro algumas dicas.

Minha primeira sugestão é evitar nos comparar com países com sistemas políticos e econômicos absolutamente distintos e/ou menos complexos. Sempre é bom começar recordando que somos um país continental, com recursos naturais e humanos invejáveis (e invejados); a sétima economia do mundo, com um sistema produtivo diversificado e sofisticado; e uma das maiores democracias do planeta.

Para dar um sentido de trajetória, sempre é bom lembrar que, ao longo das três ultimas décadas, criamos instituições que nos deram um horizonte de longo prazo que garante a estabilidade em torno de um projeto de desenvolvimento centrado na inclusão, na igualdade de direitos e de oportunidades e na sustentabilidade.

Minha segunda sugestão é admitir abertamente que erros podem ter ocorrido, e provavelmente alguns outros estão ocorrendo e ocorrerão. Mas não deixe de mencionar que não temos o monopólio do equívoco — especialmente frente a uma crise sem precedentes desde o começo do século passado. Para os que duvidam, sempre vale lembrar que foi um tremendo equívoco de política nos Estados Unidos que permitiu que uma bolha especulativa em uma fatia limitada do mercado imobiliário — o chamado subprime — se transformasse na maior crise financeira global desde 1929.

E que a política anticíclica não convencional destes últimos anos gerou um rombo de US$ 4 trilhões no passivo do banco central daqui (o Fed), mais de 25% do Produto Interno Bruto; uma dívida pública interna que supera US$ 13 trilhões (mais de 74% do PIB); e uma dívida externa acima de US$ 18 trilhões, mais que 110% do PIB.

Sempre vale mencionar, ainda, que a atual política aqui ainda é vista por muitos como um grande equívoco, responsável por uma profunda volatilidade nos fluxos e mercados financeiros globais e por enorme instabilidade financeira para todas as demais economias do planeta.

Para os de pouca memória, e/ou não americanos, basta lembrar os erros cometidos no enfrentamento da crise em outras grandes economias. Comece falando sobre a incapacidade, por parte das maiores economias, de orquestrarem políticas fiscais e monetárias consistentes, que corrijam os desequilíbrios globais e levem a uma retomada sólida.

Só para citar casos mais acompanhados pela mídia internacional, mencione o Japão ou a Europa. Por exemplo, aluda ao fato de que há duas décadas os japoneses vêm realizando “correções de curso”, que no momento já levou aquela nação a ter uma dívida pública de quase US$ 11 trilhões — mais de 200% do Produto Interno Bruto. Para os europeus, sempre vale notar que, além do problema crônico de endividamento, especialmente na sua “periferia”, o excessivo apreço pela austeridade terminou por gerar um desemprego estrutural histórico da população, deixando os jovens de hoje sem muita esperança nas suas possibilidades profissionais. Se tiver ainda tempo, fale das dificuldades da China em manter taxas de crescimento e emprego compatíveis com a estabilidade politica — e fazê-lo sem acirrar ainda mais os riscos de crise financeira doméstica.

Compare os números acima com os do Brasil: dívida pública bruta sobre o PIB inferior a 60%, reservas internacionais de mais de US$ 360 bilhões (16% do PIB) e desemprego em torno de 7%. Admita que a inflação está alta, já que estamos praticando uma impressionante correção de preços de energia e transporte; mas que estamos usando de todos os instrumentos para combatê-la. Fale da preocupação com a balança comercial, mas lembre que estamos buscando meios para recuperar a competitividade da nossa moeda e da nossa indústria. Mas não deixe de ressaltar que parece absurdo que o mercado, sempre seletivo na sua memória, ainda não tenha esquecido que deixamos de ser o país dos anos 80 — quando éramos conhecidos pelas fragilidade externa, e pelas idas e vindas ao Fundo Monetário Internacional (FMI) de pires na mão.

Mais uma sugestão: para aqueles que, como eu, têm interesse nos avanços sociais e nas melhoras de indicadores de sustentabilidade ambiental, na impossibilidade de apresentar todos os avanços em uma conversa, simplesmente peça que ele ou ela leia a página do Banco Mundial que resume tais indicadores (data.worldbank.org/country/brazil). Insista: temos um caminho longo pela frente, mas avançamos muito e os números indicam que estamos no caminho certo.

Explicar o momento politico é mais complicado. Mas me permito uma terceira sugestão neste terreno. Explique que temos somente três décadas de renascimento do regime democrático, e que herdamos dos anos de chumbo uma enorme permissividade com a corrupção nas instâncias políticas e econômicas, de violência contra os direitos cidadãos e de desconfiança em relação à capacidade de superação desses males. Não deixe de chamar a atenção que, neste curto prazo de três décadas, construímos instituições que nos permitem corrigir esses abusos e distorções de maneira exemplar. E, mais importante: mantendo um ambiente de liberdade que somente as democracias mais sólidas podem usufruir.

O mundo, e especialmente o das finanças internacionais, é impaciente, e prefere respostas rápidas e, inevitavelmente, superficiais. Gosta também de escutar mea culpas sobre nossos supostos “exageros e irresponsabilidades”, seguidos de promessas de correções rápidas — de preferência com muita penitência e sofrimento. Acha mais fácil aceitar receitinhas de bolo, que nenhum país com o tamanho e a complexidade do Brasil adota no mundo afora.

Portanto, se você quer explicar o Brasil atual no exterior, recomenda-se começar mostrando quem somos atualmente, e que estamos na direção correta de “processo civilizatório”, o qual, no passado, adiamos demasiadamente. E se possível, faça que seu público entenda que, como ocorreu em outros momentos, superaremos o momento atual ainda mais fortes — política, social e economicamente.

Sua apresentação ou fala pode tomar um pouco mais de tempo. Mas valerá a pena.

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